QUE VÃO QUE VEM

pedro frança & Victor Gerhard

QUE VÃO QUE VEM

pedro frança & Victor Gerhard

  • Período
  • 25.06 — 25.08.2020

  • Abertura
  • 25.06

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Uma Galeria Virtual Não Precisa de Porta


Por Giampaolo Bianconi


O espaço virtual tem certas vantagens sobre nosso mundo físico. Alguns feitos fantásticos – como, por exemplo, a levitação espontânea – são impossíveis no mundo real sem a utilização de acessórios dispendiosos. Outros, como um incêndio descontrolado num espaço fechado, são perigosos, e a burocracia necessária é tão complexa que os torna logisticamente impossíveis, a não ser quando apresentados como ações de guerrilha. Realizada num espaço virtual que reproduz fielmente o ambiente físico da Galeria Jaqueline Martins, a exposição de pedro frança e Victor Gerhard apresenta um misterioso objeto que levita e uma fogueira em ambiente fechado. O espaço da galeria foi reproduzido com o auxílio de um software de videogame. Ainda que alguns esqueumorfismos não essenciais tenham sido estrategicamente ignorados para intensificar a sensação de game que se tem ao caminhar pelo local, o resultado é uma galeria virtual navegável cheia de obras de arte.


A mostra de frança e Gerhard não emprega o estilo realista que se tornou lugar-comum noutras plataformas de exposição online. Ela não peca pela típica ênfase exagerada em detalhes inverossímeis, como ganchos de parede e molduras, ou pela simulação de um ambiente doméstico estéril para estimular a imaginação do consumidor. As obras foram injetadas num espaço virtual que se orgulha de sua virtualidade. Ao entrar, percebe-se imediatamente que a galeria não tem porta para a rua: num espaço virtual, não há necessidade de entrar ou sair por um limiar físico. Você pode simplesmente surgir.


Todas as obras na galeria, exceto uma – o vídeo Thanos futebol mortes e emprego (2020), de frança – são objetos físicos inseridos no espaço virtual. O vídeo parece flutuar numa sala escura nos fundos da galeria. Sua orientação vertical revela sua função original: ser compartilhado e visto por amigos no telefone celular. Thanos futebol mortes e emprego é uma aglomeração rítmica de imagens e clipes encontrados da internet, muitos dos quais também são temas visíveis nas pinturas e desenhos de frança. O vídeo também é feito de coisas compartilháveis e foi criado para ser facilmente compartilhável. Mas seu fascínio vai além: é um vídeo criado para ser visto numa tela pequena de LCD, agora apresentado no espaço de uma galeria virtual – mas, ainda assim, numa tela pequena de LCD. Thanos futebol mortes e emprego não é necessariamente uma obra traduzida para o espaço virtual, como as pinturas, esculturas e desenhos que compõem o restante da exposição. Talvez seja este o destino de todos os objetos virtuais: vagar por aí, mas sempre acabar voltando ao lugar a que pertencem.


O retorno é uma das lógicas estruturantes da exposição. Victor Gerhard, um dos primeiros artistas a trabalhar com neon no Brasil, é um precedente importante à obra de frança. O neon de Gerhard é uma fonte de luz, visível nas fotografias e filmes remanescentes de suas assemblages esculturais com luz neon e manequins, ovos e folhas de alumínio. Também é a base de seus desenhos de interiores modernos e fragmentados. O neon que surge como objeto de luz na arte de Gerhard retorna nos tons das pinturas de frança. As telas de grandes dimensões de frança emitem um brilho pútrido – verdes, rosas e azuis cintilantes com a característica tóxica dos marca-textos, dos alimentos artificiais excessivamente brilhantes e das telas retroiluminadas dos computadores. As pinturas são também arenas de imagens e textos encontrados na internet. Cada cor, imagem e letra foi coletada e reutilizada. Ao ressurgirem na exposição virtual, as pinturas estão de certo modo mais próximas de sua inspiração original. Esse mesmo grau de acúmulo inorgânico pode descrever as esculturas de roupas apresentadas na exposição, originalmente criadas como figurinos para peças teatrais. Os trajes foram excessivamente trabalhados como objetos de pintura; são telas para corpos que habitam uma mise en scène opressiva.


Entretanto, o traje mais reconhecível da exposição também é virtual. No vídeo Faz tempo quente, não vejo, frança caminha pelo ambiente vazio da Galeria Jaqueline Martins real como um fantasma simplório, uma figura envolta num lençol branco. O vídeo foi gravado pelas câmeras de segurança da galeria deserta. Olhando atentamente, vemos que o lençol foi adicionado ao corpo do artista na pós-produção, tornando-o uma espécie de animação digital. Ele é um produto da imaginação, um intruso, uma possibilidade virtual. Uma criação tecnológica, assim como os fantasmas que povoavam as populares fotografias de espíritos do século 19. Uma aparição.


Juntamente com o retorno, a aparição é a outra lógica que governa esta exposição. Personagens demoníacos da série de colagens Drama Carioca (1965), de Gerhard, ressurgem como fantasmas novos em alguns dos trabalhos de França. O retorno e a aparição, afinal, são lógicas gêmeas. Aquilo que aparece pode ser um retorno sem que o saibamos. Esta simples possibilidade afirma a urgência da exposição. Trata-se de obras novas ou de obras antigas injetadas no espaço virtual? Estamos testemunhando a aparição de técnicas novas ou o retorno de técnicas antigas? Estamos vivendo em tempos inéditos ou revivendo histórias que foram esquecidas? Nesta exposição, frança e Gerhard criaram um espaço virtual que revela o que já sabemos, mas temos tanta dificuldade em admitir: ambas as afirmações são verdadeiras. 

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