Adriano Amaral & Victor Gerhard

Adriano Amaral & Victor Gerhard

  • Período
  • 13.02 — 03.04.2021

  • Abertura
  • 13.02 — 12 hrs

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A invenção de sentidos em Adriano Amaral e Victor Gerhard – por Kiki Mazzucchelli.

 


Em um episódio do programa Voices, transmitido em 1983 pelo canal britânico Channel 4, John Berger e Susan Sontag, sentados em lados opostos de uma pequena mesa debatem por quase uma hora sobre a natureza da narrativa literária. Na medida em que a conversa se desenrola, fica cada vez mais claro que essa oposição não diz respeito somente ao posicionamento dos corpos dos debatedores no quadro da câmera; pelo contrário: apesar do respeito mútuo que transparece durante todo o diálogo, os autores entendem o papel da narrativa a partir de pontos de vista opostos. Não cabe aqui entrar em muitos detalhes, mas talvez seja suficiente dizer que, para Berger, a narrativa é resultado da linguagem como algo que ‘vem das pessoas’, enquanto para Sontag o narrador é um inventor que cria o material ‘de onde as pessoas vêm’. Em outras palavras, para o primeiro o sentido advém de algo exterior ao ato da criação literária, enquanto no segundo caso a literatura é entendida como criadora de sentidos para a vida.

 

A razão pela qual menciono essa instigante discussão é porque tenho a forte impressão de que, caso se tratasse de um debate sobre arte, tanto Adriano Amaral quanto Victor Gerhard estariam alinhados à Sontag. Embora pertençam a gerações distintas, tendo nascido com quase cinco décadas de diferença e com trajetórias completamente diversas, Amaral e Gerhard parecem compartilhar uma abordagem do fazer artístico centrada em uma espécie de alquimia dos materiais e baseada em processos experimentais cujo resultado nunca é dado de antemão. Ou seja, não são trabalhos elaborados a partir de projetos pré-concebidos ou que se configuram necessariamente a partir de uma realidade externa. Em ambos os casos, as obras evocam uma profunda sensação de ambiguidade ou até mesmo de estranhamento radical, na medida em que se recusam a oferecer sentidos estáticos e facilmente decifráveis. Tanto Amaral quanto Gerhard são artistas que conseguiram construir vocabulários muito próprios e singulares; criando mundos particulares que se articulam segundo uma lógica interna.

 

O que chama a atenção nas esculturas de Adriano Amaral, num primeiro momento, é a materialidade inusitada que combina elementos orgânicos e sintéticos. Há algo de surpreendente e enigmático nesses objetos que se configuram quase como totens de algum clã desconhecido. São construções extremamente intrincadas, constituídas por objetos encontrados e outros produzidos através de intensos processos de experimentação no ateliê. É ali, no embate diário com uma variedade de materiais de procedências das mais diversas, que o trabalho de Adriano Amaral toma forma. O ateliê é seu laboratório; é o espaço onde manipula pigmentos, metais fundidos, fragmentos de plantas, silicone líquido, entre muitos outros, testando incansavelmente as possibilidades de interação entre os materiais e os limites da transformação da matéria. Nesse processo de experimentação intensiva, o artista observa atentamente os resultados obtidos e encontra correspondências intuitivas entre as diferentes partes que, aos poucos, vão se coagulando em um todo.

 

Em uma das esculturas, uma faixa vertical de um branco-azulado iridescente pende de um volume oval fixado na parede por um braço de alumínio. Executada em borracha protética, essa faixa funciona como uma espécie de pele translúcida através da qual enxergamos os padrões hexagonais formados pelas aberturas de um capacete de rugby e a superfície de uma casca de árvore, todos amalgamados em um único objeto que incorpora diferentes texturas e materialidades. A combinação entre um equipamento esportivo que se acopla à cabeça e o revestimento com um material que simula o toque da pele evoca uma presença humana, embora esse corpo pareça ser igualmente constituído de matéria orgânica e sintética.

 

As obras de Adriano Amaral provocam uma certa dúvida e nos convocam a examiná-las atentamente; leva um tempo até conseguirmos distinguir aproximadamente os materiais de que são feitas. Isso não quer dizer que seu propósito seja criar um jogo de revelação de algo que é dissimulado; o que importa aqui é precisamente a atenção aos materiais e quais pistas eles podem nos dar a respeito do mundo em que vivemos. De modo indireto, as esculturas de Amaral nos fazem perguntar de onde vêm esses materiais, para que servem, de que maneira estão presentes no nosso dia a dia, como os recursos naturais são transformados em produtos industrializados e, em última instância, quais são os parâmetros éticos que regem a utilização desses recursos.

 

Nos filmes de Super-8 de Victor Gerhard, é possível identificar uma preocupação semelhante com a materialidade do filme e a natureza da imagem, bem como a exploração experimental de suas partes constituintes. Longe de serem tentativas de construir narrativas lineares, esses trabalhos apresentam sequências enigmáticas em que o artista manipula a luz, a cor, a textura, o movimento e o som para criar filmes que são atmosféricos e sugestivos. O ovo (1980) é uma animação em stop-motion que tem esse objeto simbólico como protagonista de uma espécie de thriller hipnótico. Aqui Gerhard elabora uma narrativa caleidoscópica e fragmentada utilizando objetos variados para criar cenas que muitas vezes adquirem um caráter quase surrealista, na medida em que apresentam aquilo que é familiar em situações bizarras. O ovo, estrutura primordial, é explorado tanto em seus aspectos simbólicos quanto formais: ideias acerca da reprodução e da criação parecem ser tão relevantes quanto às correspondências ou contrastes encontrados em outros objetos (caixas, bolas de sinuca) ou materiais (ovos de pedra, tinta vermelha). Ao longo do filme, o ovo é apresentado em situações absurdas ou cômicas, como quando retorna à cloaca ou é iluminado de diferentes ângulos de modo a emular as fases da lua. Assim como Amaral, Gerhard parece buscar os possíveis sentidos de sua obra no embate e na experimentação com seus materiais - nesse caso o filme Super-8 como matéria - e na construção de um vocabulário próprio que nunca se deixa decifrar completamente.

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