RAREE SHOW 2: Cristiano Lenhardt

02.04.15 — 16.05.15

 

Super Quadra Saci - still - Cristiano Lenhardt

02 abril — 16 maio 


Curadoria de Bruno Mendoça

 “Cristiano Lenhardt habita uma casa fora do mundo, onde o seu limite não é aquele da linguagem”, é assim que o artista Michel Zózimo apresenta Cristiano em seu livro “Assim que for editado, lhe envio”. Tomei a liberdade de me apropriar dessa apresentação, pois ela é realmente pontual.

Ao ler o comentário feito por Zózimo a respeito do artista logo me veio à cabeça alguns conceitos que para mim nunca se esgotam, e que acho que podem promover relações interessantes à produção do artista como um todo, mas também ao trabalho apresentado no contexto dessa exposição.

O primeiro conceito seria o de uma “incerteza lúcida” como propõe o antropólogo James Clifford em diversos textos. O outro é uma espécie de “laboratório de dúvidas” como utilizado pelo artista Carsten Höller como metodologia de trabalho. Gosto de pensar nesses conceitos para o trabalho de Cristiano Lenhardt.

De alguma forma também me recordo de um comentário feito pelo artista Cerith Wyn Evans em uma de suas entrevistas. Evans aponta de forma poética através de uma metáfora de que para ele a arte é como se você por acidente tivesse aberto uma porta errada em um espaço, ou talvez a porta certa, mas que talvez a porta errada seja mais apropriada afinal, a porta errada sugere um encontro com alguma coisa que você não espera, e nessa espécie de choque você se sente como um surdo encarando um rádio. É dessa forma que me senti todas as vezes que entrei em contato com o trabalho de Cristiano Lenhardt, e isso na verdade foi maravilhoso. É como se o trabalho de Cristiano fosse um grande “mix de peças erradas”, aí reside sua potência. E é essa a política para além da política presente em seu trabalho.

Atuar na potência da dúvida, esquecer vírgulas como também coloca Michel Zózimo quando se refere ao artista, isso sim pode ser de fato subversivo, uma poderosa forma de agressão.

A meu ver essas questões aparecem no trabalho de Cristiano não apenas como um input conceitual, ou como algo processual e subjetivo, mas são tomadas de forma prática no sentido de que o artista potencializa e materializa isso através de seus trabalhos – dando forma.

Em “Meu Mundo Jegue”, obra apresentada na exposição Raree Show 2 no espaço glory hole, Cristiano apresenta uma parte de sua pesquisa recente. O trabalho é parte de uma série que compõe o processo de pesquisa para o filme “Super-Quadra Saci”, a ser realizado em breve. Como o próprio artista coloca, ”Meu Mundo Jegue” é uma espécie de “argumento” para o filme. Essa espécie de desdobramento que os trabalhos vão assumindo em sua produção também é muito interessante. O artista cria uma complexa rede que dificulta qualquer análise de forma estanque.

Nesta pesquisa Cristiano se debruça mais uma vez sobre um Brasil profundo. De forma melancólica e bem-humorada o trabalho é um comentário importante sobre o ontem, o hoje e o amanhã, mas principalmente após os acontecimentos de 15 de março de 2015, não consigo deixar de ver “Meu Mundo Jegue” como uma espécie de manifesto.

O artista diz: “Sobretudo o amor, a pobreza indígena maior riqueza da alma. Ruas sem asfalto, árvores e mais árvores ao ponto de voltar a ser mato. Prefiro ser picado por uma cobra, comido por uma onça do que sentir preconceito ou abuso de poder. […] O ideal de um Brasil moderno é emparedado aos mitos, lendas e costumes populares. O ideal de representação se mistura a um cerimonial capenga. E as revoadas políticas são tomadas como coreografias graciosas”.

“Meu Mundo Jegue” invade o buraco da glória e apresenta um espetáculo raro. Com Cristiano as palavras realmente ficam melhores no bom português, afinal ele nasceu em Itaara, eu na Rua Iperoig e você provavelmente em Itaúna. Lenhardt se torna Lenha e ele sabe bem, pois ele mesmo diz que “toda a parte de trás da gente é um mundo preto, limpinho”.

Deixo-lhe então com um convite – me apropriando mais uma vez das palavras do artista Cerith Wyn Evans: “Venha, entre na arena de contradições onde prazer e realidade se abraçam…”

Bruno Mendonça

 

chega de chic

 

 

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