Was Ist Kunst — Mirrors of Production

10 julho — 17 agosto

 

 

Rasa Todošijević
Dan Perjovschi & Mark
Schreiber
Július Koller
Regina Vater
Viola Yeşiltaç
Hugo Canoilas
Irwin
Ula Johnsen
Gastão de Magalhães

 

Curadoria de Tobi Maier

 

A exposição Was ist Kunst? – Mirrors of Production apresenta a questão “o que é arte?” com uma série de trabalhos feitos por uma seleção de artistas do Brasil e Europa. A mostra não tem a pretensão de responder a este questionamento. A história da arte moderna é repleta de esforços voltados para definir a noção de arte. Was ist Kunst? – Mirrors of Production é uma proposta de jogo que expõe a diversidade de maneiras com que artistas encaram a arte, a partir de uma perspectiva metafísica, estética e histórica, e ainda como crítica institucional. 

No entanto, a questão sobre a definição da arte já despertou enorme atenção nas esferas da literatura e da filosofia. No ensaio “O que é literatura? de 1949, Jean-Paul Sartre discute a respeito da autonomia e comprometimento da arte. Sartre faz referência principalmente `a questão da agência, e afirma que para ele “a obra de arte é um valor por que é apelo.”.[1] Em seu recente livro O que é Arte? o filósofo norte-americano Arthur C. Danto parece concordar com Sartre ao definir que “…algo é considerado uma obra de arte quando carrega um significado”.[2] Similarmente, esta exposição originou-se do interesse naquilo que é invocado pelas obras de arte, o que elas pleiteiam, as histórias contadas por elas, em outras palavras, a capacidade que elas carregam para intervir no mundo. 

Em Utopia Deferred, Writings for Utopie (1967-1978), Jean Baudrillard discute sua relação com a arte e a arquitetura. O sociólogo e crítico cultural francês discorre sobre a metafísica do objeto e da imagem. Refere-se ao Centro Pompidou como “este monstro” pelo qual se interessa não estritamente como arquitetura, senão enquanto objeto.[3] Aparentemente, a questão sobre qual seu significado, e o que invoca, também tem norteado o entendimento de Baudrillard sobre arquitetura e design. Desta forma, o título desta exposição também tem relação com indagações tais como “O que tem ali?” e “Como é isso?”, questionando a lógica tradicional objeto-sujeito que tem sido debatida desde o minimalismo, e mais tarde, com o advento da chamada estética relacional.

A artista Andrea Fraser considera que a maior parte da arte que vê hoje é uma “produção cultural”[4], enquanto a prática artística para ela “resiste, ou tem a intenção de resistir, funcionando como a cultura representativa de um grupo particular – quer seja os produtores, fruidores, ou compradores de arte…”. Dentro desse cânone da arte como uma prática socialmente engajada, a noção de resistência em arte encontra-se também presente no pensamento da socióloga Chantal Mouffe, que considera a arte como uma plataforma de articulação que dá origem a novas subjetividades.

Os escritos desses filósofos, sociólogos e artistas apresentam algumas das reflexões e referências que impulsionaram a concepção desta mostra, em um momento em que o mercado de arte brasileiro alcança recordes históricos, e obras de arte deixam de ser admiradas meramente por seu valor estético para tornar-se alvo de especulação financeira, passando a ser consideradas uma mercadoria em escala global. 

Assim, o título da exposição remete a um discurso de dentro da crítica de arte, porém se inspira de maneira mais literal na pergunta Was ist Kunst? (O que é arte?), que – colocada em alemão – é o título de uma série de trabalhos aqui apresentados, um deles criado pelo artista sérvio Raša Todosijevic e outro pelo coletivo esloveno IRWIN. No primeiro, as ‘vítimas’ do artista – galeristas, trabalhadores de museus etc. – são interrogados a gritos: “Was ist Kunst?”. Deste modo Todosijevic formula uma crítica radical ao sistema da arte nos anos 1970. Durante estas performances, quanto mais as ‘vítimas’ permaneciam indiferentes e totalmente passivas, mais perturbado Todosijevic se tornava.[5] Na Declaração de Edimburgo de 1975, o artista questiona em modo de manifesto: “Quem obtém lucro com a arte? E quem ganha honestamente com ela?” Em seguida, lista todas as profissões que se beneficiam direta ou indiretamente com a produção artística.

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IRWIN Was ist Kunst 2002

Um dos mais importantes projetos do grupo IRWIN em meados da década de 1980 foi Was ist Kunst?, que foi se desenvolvendo ao longo do tempo numa série de mais de cem pinturas a óleo emolduradas. Essas pinturas continham montagens de Agitprop (propaganda) socialista realista, e citavam temáticas da arte modernista eslovena da década de 1960. A este conjunto, IRWIN soma figuras arquetípicas Laibach[6]: trabalhadores metalúrgicos, veados, chifres de veado, machados, a imagem de uma pessoa bebendo café, engrenagens, e uma cruz preta ao estilo de Malevich. Os materiais usados nas pinturas são surpreendentes: sangue, alcatrão, pele animal, carvão, madeira, folha de ouro e outros metais, enquanto as pesadas molduras são compostas por alcatrão preto, madeira e carvão. Confundindo os limites entre realismo social e folclore, a coleção de obras faz referência `as diferentes ideologias empregadas nas artes.

Ao entrar na galeria, o observador depara-se com os trabalhos de joalheria da artista Ula Johnsen. A decisão de incluir peças de joalheria numa exposição de arte contemporânea enfatiza radicalmente o questionamento apresentado no título da mostra. As artes aplicadas têm sido frequentemente marginalizadas no discurso em torno da arte contemporânea, apesar de tentativas incipientes de incluir esta prática tão importante nas bienais internacionais, como no caso dos laboratórios propostos por Vilem Flusser na 12° Bienal de São Paulo em 1973. A inclusão desses trabalhos na exposição coloca em questão um aparente elitismo das mídias empregadas na produção de arte contemporânea, e ao mesmo tempo destaca o contexto da galeria como um espaço de comercialização de bens preciosos. 

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Julius Koller Univerzalna Fantastica Orientacia (U.F.O.) 1979

No mesmo espaço encontra-se a obra Stockholm Ping-Pong Cultural Situation do artista eslovaco Julius Koller, de 2006. Ping-Pong Society é um projeto concebido por Koller em Bratislava em 1970. No lugar de uma exposição, ele organiza um clube de pingue-pongue onde os visitantes podem jogar. O trabalho aqui presente é uma das tantas mesas diferentes produzidas pelo artista durante sua vida. Ao longo da última década, os conceitos de Koller de anti-happening, as anti-pinturas, suas ações, objetos, textos, e seu arquivo compilado desde a década de 1960, têm recebido a merecida atenção. A exposição apresenta também uma série de trabalhos relacionados ao projeto UFO Gallery Ganek de 1981, um lugar ficcional inacessível no maciço montanhoso dos Altos Tatra, resultante das expedições que Koller realizou com um pequeno círculo de amigos.

Regina Vater série Art Assauto 1978

Regina Vater Assalto da séria ART 1978

Durante o Festival de Artes do Teatro Municipal de São Paulo em 1978, Regina Vater realizou o questionário O que é Arte – São Paulo responde produziu mais tarde um livro de artista, com as respostas obtidas por parte do público. Em 1980 ela reaplicou o questionário durante um festival organizado por Charlotte Moorman em Nova York. As respostas coletadas nesta ocasião estão sendo publicadas aqui pela primeira vez. Na sua série X-range da década de 1970, Vater retrata o habitat de seus amigos artistas Paul Newman, John Cage, Lygia Clark, Vito Acconci e outros. Produzida no mesmo período, sua série Arte questiona a metafísica do objeto de arte, atribuindo esse status a uma bexiga rosa, um prato de sopa ou um pedaço de sabão de limpeza. Assim a artista usa estes objetos como parte de um discurso metafórico de critica `a arte e seu ambiente. 

Gastão de Magalhães é um dos protagonistas do movimento de arte postal brasileiro. O trabalho textual selecionado para integrar esta exposição foi realizado em 1972 e apresentado na 6° JAC (Exposição Jovem Arte Contemporânea) no MAC/USP. No texto, reproduzido nesta mostra pela primeira vez desde então, Magalhães analisa as várias características da arte como meio de “ação e conhecimento”, um “happening” ou “sequência rítmica”, “uma atividade lúdica” e “certamente uma atividade nada passiva”. A fotografia em preto e branco Isto é Arte, de 1975, retrata o artista com as letras A, R e T, parte de um jogo de letras plásticas usado para a alfabetização de crianças. Com as letras entre seus dentes, prestes a serem destruídas, a peça é também – segundo Magalhães – uma provocação proposital contra o regime ditatorial da extrema direita, que se encontrava no poder naquela época.

No andar de cima da galeria, Hugo Canoilas e Viola Yeşiltaç apresentam uma nova série de pinturas e colagens produzida especialmente para este evento. Em Untitled (Sem título), 2012, Yeşiltaç trabalha com tinta vermelha no verso de vinil vermelho. Ao fazer experimentações sobre uma superfície barata, reaproveitada, cria uma representação de um cenário tropical onírico, inspirado na sua recente visita ao Brasil.

Abrangendo diferentes mídias incluindo escultura, escritura e performance musical, Hugo Canoilas frequentemente questiona o significado da arte e sua relação com a vida. Em seu trabalho ele costuma fazer referência a líderes políticos ou outros artistas, como por exemplo, a pintura de Albrecht Altdorfer, The Battle of Issus, de 1528-29, ou a trágica imagem de Pieter Bruegel, The Blind Leading the Blind (A Parábola dos Cegos), de 1568, ou de Henrique Bernardelli (1857 – 1936), The last moments of a Bandeirante (Últimos momentos de um Bandeirante), de 1932. Nas colagens produzidas para esta mostra a apropriação de imagens encontradas domina a superfície da tela, que aparenta ter sido cortada ou rasgada bruscamente. 

Finalmente, a obra My World (Meu Mundo), de 2006, foi produzida pelo artista romeno Dan Perjovschi em colaboração com o artista e compositor sul-africano Mark Schreiber. My World é uma combinação visceral entre os desenhos em preto e branco digitalizados de Perjovschi e as composições lúdicas, bem humoradas de Schreiber, criadas a partir de sons eletrônicos processados a partir de registros do ato de desenhar. No seu estilo espirituoso e único Perjovschi retrata questões políticas (institucionais) iminentes e recorrentes, e as realidades confrontadas por dentro e fora dos espaços expositivos pelo próprio artista. 

Consequentemente Was ist Kunst? – Mirrors of Production é também, assim como toda exposição, um tributo devido à produção artística atual, bem antes do lendário escritor e curador Seth Siegelaub afirmar que a arte conceptual dividiria o mundo da arte em “dois tipos de pessoas: artistas e todo o resto.”[7]

 

Tobi Maier

Paris, Maio 2013

 

[1] SARTRE, Jean-Paul. What is literature?, traduzido por Bernard Frechtman. Nova York: Philosophical Library, 1949, p.49.

[2] DANTO, Arthur C. What Art is? EUA: Yale University press, 2013.

[3] BAUDRILLARD, Jean. Utopia Deferred. EUA: Semiotext(e) Foreign Agents, 2006, p.23.

[4] FRASER, Andrea. Museum Highlights, The Writings of Andre Fraser, Alexander Alberro ed. EUA: MIT Press, 2005, p.38.

[5] Cf. MATICEVIC, Davor. A propos d’une exposition. In: Avant-gardes Yougoslaves. Carcassonne, 1989.

[6] NDT. Laibach, banda eslovena formada em 1980, fortemente associada aos estilos industrial, industrial marcial e neo-clássico.

[7] SIEGELAUB, Seth, in: On Exhibitions and the World at Large, Seth Siegelaub in Conversation with Charles Harrison, September 1969. Studio International, 178:917 (Dezembro 1969).

 

 

 

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