Sempre um ponto de identidade, sempre distinção

 

 12 novembro — 22 dezembro

 

 

Curadoria de Hércules Goulart Martins

 

Sempre um ponto de identidade, sempre distinção*

O conjunto de obras apresentadas compreende uma miríade de poéticas e entre os veículos empregados encontram-se instalação, desenho, vídeo, diagrama e site specific, entre outros. A partir destes e de suas substâncias ou sintaxes, instaura-se um jogo incessante de convergências e diferenças. Abordagens e tópicos diversos – como proposições participativas, dilatação ou transbordamento temporal, enfoque sóciopolítico, circularidade, impermanência, público, doméstico, concreto e impalpável – entrecruzam-se continuamente, oferecendo, assim, apreensões efetivamente mais prismáticas e, por conseguinte, potencializando novos significados, interpretações e irrestritas analogias.

A exposição tem como chave o termo mutualismo, corrente em vários campos do conhecimento, sobretudo na esfera da Biologia e da Sociologia. Este conceito refere-se, acima de tudo, à relação simbiótica que se estabelece entre seres de uma mesma espécie, como também entre organismos de espécies dissímeis e, ainda, entre indivíduos de uma mesma sociedade ou de sociedades distintas. As inter-relações de alteridades oriundas dessas performances dão início a um processo de mútua reciprocidade e interpolinização. Como consequência, novos elos, devires e identidades matizadas passam a ser encetadas.

Ademais, o vocábulo mutualismo provém etimologicamente da palavra latina mutuus que significa recíproco. Mutuus vem da raiz do verbo mutare que denota aquilo que pode cambiar ou intercambiar-se. Com o acréscimo do sufixo grego ismos, mutualismo passa igualmente a conotar estado, condição e processo.

A noção de reciprocidade reflete a profusa teia de pontos de correspondências subjacentes aos trabalhos expostos. Dado o caráter particular das estratégias conceituais e dos gestos processuais adotados, cada zona de confluência passa a ocasionar um excedente de perspectivas diferenciais. O princípio da mutualidade ilumina, outrossim, as idiossincráticas relações que os trabalhos vêm a estabelecer com a arquitetura circundante e visa-versa, resultando, amiúde, em alterações do território psicológico e físico ocupado pelo público. E, por fim, evidencia o caráter intergeracional e pluricultural da exposição.

O vídeo, After a deep sleep (Getting out), do artista Rafael França (1957-1991), assinala nitidamente a índole da exposição e aponta à latência de correlações que possam vir a manifestar-se em relação a outros trabalhos. O uso experimental de lapsos de tempo, ironia, interpolação de planos cromáticos, inversão temporal e ruptura do liame entre imagem e som, gera uma indefinição característica da hibridização de gêneros. Mesclam-se, aqui, aspectos muito peculiares à Nouvelle Vague e ao Slapstick. As convenções que demarcam os limites entre still, fotografia realista, animação e imagem cinemática resultam inapropriadas. A incongruência sonora introduz diferentes temporalidades e cria uma atmosfera esquizoide, tingindo e sobrepondo-se à dinâmica da geometria espacial. A reverberação iterativa de uma espécie de after-sound nos cerca e nos engaja como co-protagonistas, à semelhança da performer, de uma trama onde a arquitetura doméstica é vivenciada enquanto uma situação insólita e de confinamento.

É necessário notar aqui que a produção desse vídeo se deu um ano antes do término, dito oficial, da ditadura militar, em 1985.

A justaposição das obras apresenta uma configuração aberta, à feição de uma constelação distendida de situações e microcosmos, que objetiva facultar uma sucessão de encontros, bem como uma relação mais direta e ativa, logo, menos distante e contemplativa. É a partir da locomoção, ou seja, de uma performance espaço-temporal, que o visitante passa a integrar e a compor juntamente com as imagens, proposições, sons e objetos, um fortuito e contingente campo sensorial-cognitivo.

Artistas participantes:

Adriano Amaral (BR), Ana Mazzei (BR), Charbel-joseph H. Boutros (LB), Daniel de Paula (BR), Débora Bolsoni (BR), Goran Petercol (HR), Ícaro Lira (BR) , Lais Myrrha (BR), Michael Smith (US), Ricardo Basbaum (BR), Rafael França (BR).

* Excerto do poema Canto de mim mesmo de Walt Whitman

 

Hércules Goulart Martins

 

 

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