Ruído Branco

03 abril — 11 maio 2013

 

 

Curadoria de Maria Iñigo Clavo

 

-Charades- 1976 Film installation

Bill Lundberg Charades 1976

Quatro personagens projetados sobre um copo com água inventam gestos para transmitir famosas definições da arte de celebridades como Picasso, Kafka, Malraux ou Longfellow, entre outros: A arte é a filha do prazer, a arte é a definição da arte, a arte é um espelho que às vezes anda “rápido” como um relógio; a grande arte é um instante preso na eternidade. As palavras não têm valor e, por isso, aparece o corpo, e o que deve ser adivinhado está relacionado com a natureza da própria ação: “a arte é uma mentira que nos permite perceber a verdade”. Algo de tudo isto nos conecta com o neon que Bruce Nauman realizou inspirando-se em anúncios das lojas da vizinhança do ateliê de 1967: O verdadeiro artista ajuda o mundo revelando verdades místicas. A arte será então o mediador, o médium, entre diversos espaços de sensibilidade, e a arte será também uma charada, uma mentira onde reside uma verdade. É uma fantasmagoria, como as próprias peças de Bill Lundberg e como o trabalho Charadas realizado em 1976, uma de suas primeiras experiências na videoinstalação: descobrir o mecanismo da ilusão de ótica é parte da experiência do espectador, compreender como é construída a ilusão, como a verdade se relaciona com a mentira, assim, a obra converte-se numa “charada” em si mesma. Seria o que Jean Baudrillard chamou de crime perfeito, onde a verdade já não se opõe à ilusão mas brinca com ela: “O segundo sempre é uma realidade mais sutil que envolve o primeiro com o sinal de seu desaparecimento”[1].

Esta exposição tomou como ponto de partida algumas obras do artista norte-americano Bill Lundberg para refletir sobre os processos comunicativos e a fragilidade da linguagem que estes somatizam. Exibe o que as palavras não podem, ao que, certamente, o fazer lúdico da arte tem acesso. As diferentes obras geram um percurso por alguns pontos de luz ou de sentido sobre a comunicação: o jogo, o artista como mediador ou como médium, a insuficiência da linguagem, a tradução e o intraduzível, a verdade… Também o silêncio do indizível. Assim em Silent Dinner (Jantar silencioso) de Bill Lundberg, obra criada entre 1975-76, um jantar é gravado e projetado em tempo real, o espectador é convidado a sentar-se e compartilhar com os comensais o tenso silêncio do que poderia ser um jantar familiar. O extracampo da tela cinematográfica é composto pelos espectadores que compartilham esse local de socialização que é a comida, transformada numa oportunidade de encontro frustrado. 

Neste mesmo ano os artistas Sonia Andrade, Fernando Cocchiarale, Miriam Danowski, Anna Bella Geiger, Ivens Machado, Ana Vitória Mussi, Paulo Herkenhoff e Letícia Parente formavam um grupo de trabalho e reflexão sobre a arte. Uma das experiências realizadas teve como resultado o vídeo filmado pelo filho de Anna Bella Geiger, que capturou os participantes brincando de Telefone sem Fio. Rainer Guldin, um dos principais especialistas em Vilém Flusser ilustra a contracapa do seu livro “As margens da tradução” com um comentário sobre esta brincadeira. “O objetivo do jogo, porém, não é testar a confiabilidade do trânsito da informação através das muitas mãos diferentes, mas exemplificar a fragilidade e as dificuldades básicas da comunicação humana. Isso acontece graças ao efeito teatral contido na estrutura do próprio jogo, que transforma um profundo sentimento de malogro em um momento de riso liberador”. O rumor precedia aos processos de insurgência, como tem mostrado extensamente alguns autores[2]. Geralmente este se propagava sem nenhum planejamento desatando o pânico dos opressores, pois circulava com vida própria sem nenhum controle. O rumor é uma mensagem sem uma origem concreta, sem uma voz, por este motivo tem sido chamado de escrita ilegítima[3] em contraste com o suporte escrito assinado e autoritário. Levando em conta que esta experiência do telefone sem fio foi realizada durante o AI-5, poderíamos pensar que esses sussurros somatizam, como um rumor,  a impossibilidade de poder falar livremente.  

Anna Raimondo em 2013 utiliza gravações das dissertações de Foucault de 1983 para fingir que trava uma conversa com ele sobre a parrésia. Em inglês, este termo é conhecido como “free speech”, um conceito criado na literatura grega de Eurípides e  que fala do momento político no qual um indivíduo, colocando em risco seus interesses, diz sua própria verdade, “dizendo tudo o que lhe vem à mente”[4]: e, por isso, o sujeito da enunciação é o sujeito do enunciado. Com esta obra Anna Raimondo reativa o arquivo tornando-o vivo e vivente. No entanto, nem Foucault nem Raimondo falam sua própria língua o que dificulta a comunicação, sendo necessário traduzir o sentido.

 Entretanto seria paradoxal falar de verdade(s) quando as obras de Lundberg baseiam-se na ilusão. Em Anna Freud de 2007, Lundberg também fala com os mortos: escrevendo  uma carta à psicanalista anos depois de sua morte. Mais uma vez a obra trata das oportunidades de encontros perdidos já que o artista parte de sua frustração por não tê-la conhecido quando foi possível. Lundberg, ignorando a  morte dela, convida-a a passar um tempo juntos para conversarem sobre uma inspiradora conferência, à qual o artista assistiu muitos anos atrás e, também, sugere trocar com ela suas experiências e conhecimentos sobre psicanálise e filosofia oriental.

Ruído Branco é um tipo de ruído produzido pela combinação simultânea de sons de todas as frequências. Da mesma forma que a cor branca é descrita como o encontro de todas as cores, este ruído manifesta-se como um rumor que habitualmente se utiliza para dissimular outros sons. Tem sido usado como um meio para  desorientar pessoas em interrogatórios, mas também para o relaxamento, já que se acredita em suas propriedades hipnóticas. 

Cópia de Hilda Hilst na escuta PB

J. Toledo Hilda Hilst em escuta de sinais de rádio Anos 70

Durante os anos setenta a escritora Hilda Hilst considerou esses espaços como um lugar de comunicação entre os vivos e os mortos e buscou nesses murmúrios sonoros possíveis manifestações de familiares e outros espíritos. Os artistas visuais Mario Ramiro e Gabriela Greeb realizaram em 2009 a peça Rede Telefonia na qual recolheram as gravações que Hilda Hilst havia acumulado durante anos em sua casa, e realizaram uma composição sonora. Nela, podemos ouvir, a diferentes horas do dia e da noite, a escritora realizando um chamado a essas energias ou espíritos que possam escutar, oferecendo-se para atuar como interlocutora, tradutora.

Os meios de comunicação da época e a própria Hilst insistiam no caráter científico de sua investigação, tratando de afastar qualquer relação com as clássicas imagens aterrorizantes de almas penadas. Na verdade estas eram as precárias vozes que abriam passagem entre o Ruído branco. Em sua célebre conferência de 1953, “Sobre perder e estar perdido”, Anna Freud realiza uma análise dos processos emocionais envolvidos na perda de objetos para terminar falando da perda dos seres queridos, “é lamentável mais do que assustador, e misterioso em vez de completamente aterrorizante. São “pobres” já que simbolizam o empobrecimento emocional sentido pelo sobrevivente. Estão “perdidos” e são símbolos de objetos perdidos[5]. O “descanso eterno” destas almas depende mais dos vivos, pois só poderá ser alcançado quando o sobrevivente aceitar a perda. 

Pensando nas ciências ocultas da transmissão e da tradução, as peças de Javier Codesal se projetam desde o passado até o futuro. Codesal começou suas investigações em torno da videoarte na Espanha nos anos oitenta. Leitura de mãos de 2002, obra na qual uma vidente lê as linhas das mãos dele, é um autorretrato do artista, de um mediador, mas nesta ocasião por meio de outra médium, que prediz seu futuro através das marcas de seu corpo. É um plano-sequência e, embora não exista o artifício da montagem cinematográfica, a própria ação em si mesma está cheia de ilusão. É também um jogo de adivinhação, como a charada. Entretanto, como em uma armadilha própria da arte, descobrimos finalmente que o que estamos vendo é, na realidade, um retrato da vidente.

Esses espelhamentos são os que Letícia Parente cita em seu vídeo Especular de 1978, no qual seus filhos, interconectados por auriculares, vão acumulando os reflexos de suas conversações: Quero ouvir o que você está ouvindo de mim dentro de você. A frase cresce sem fim da mesma forma que se torna infinito o espaço que está entre dois espelhos que se respondem:  Eu quero ouvir o que você está ouvindo de mim, o que eu estou ouvindo de você, dentro de mim. É disso que consiste olhar-se nos olhos.

A expressão Telefone sem fio em inglês é conhecida como Chinese Whispers (sussurros chineses), o que sem dúvida tem certas conotações coloniais mostrando a incapacidade dos ingleses para compreender a cultura chinesa no século XIX. Com esse enunciado expressava-se a confusão, o que retrata uma antiga estratégia para criar relações de poder: produzir o outro para assim criar as diferenças. É uma relação parecida à que a Espanha estabeleceu com o Marrocos. Distinguir o outro para não correr o risco de se ver identificado com ele. Por isso faz sentido que Javier Codesal peça a um casal de namorados que traduza um poema de Ibn Quzman, um poeta árabe-andaluz nascido em Córdoba em 1078 antes da expulsão dos árabes da Espanha. A tradução tem se transformado em uma categoria de criação de conhecimento nas últimas décadas. Haroldo de Campos já se adiantou a esta ideia quando falava de transcriação, segundo a qual o tradutor é um criador a mais. Por isto propunha oficinas de tradução com agentes de outros campos, entre eles os artistas que, como Campos muito bem intuiu, são experientes agentes da mediação.

Algo do que os espanhóis somos, ou do que não somos, está no poema de Ibn  Quzman intitulado «inventário dos moços bonitos de Córdoba»; está em nossa história da incompreensão que se repete uma vez ou outra compulsivamente. Todo o intraduzível se põe em jogo no ato de traduzir com dificuldade e, da mesma forma, nesse lúdico diálogo entre um casal: uma marroquina e um espanhol. Ela tem dificuldades para compreender o sentido do texto mesmo que possa traduzir muito bem as palavras, enquanto com ele acontece o contrário.

 

Maria Iñigo Clavo 

 

 

[1] BAUDRILLAR, Jean. El crimen perfecto. Madri: Anagrama, 1996, 1º ed. 1995. Pg. 200.

[2] BHABHA, Homi. El lugar de la cultura. Buenos Aires: Manantial, 2000.

[3]SPIVAK, Gayatri. Subaltern Studies: Deconstructing Historiography. In: GUHA, Ranajit, (ed.) Subaltern Studies IV: Writtingson South Asian History and Society. Delhi: Oxford University Press, 1985, pp 330-363.

[4] FOUCAULT, Michael. Fearless Speech. Los Angeles: Semiotex, 2001.

[5]FREUD, Anna. About losing and being lost. The Psychoanalytic Study of the Child, 22. 1967. 9-19.

 

 

Cópia de _MRG3952 Cópia de _MRG3970 Cópia de _MRG4028 Cópia de _MRG4078 Cópia de _MRG4090

 

 

 

 

 

 

 

 

Share on FacebookTweet about this on TwitterGoogle+Pin on Pinterest