O que parece mentira é poesia

Há muito ainda o que se pesquisar e revisionar no campo da arte brasileira, principalmente no que se refere a artistas não residentes nos grandes centros do país. Isso significa não apenas dar visibilidade aos nomes e trabalhos, mas compreender os diferentes contextos, dinâmicas, acentos e maneiras de se fazer arte. Todo artista é uma singularidade e uma multidão, constelação. Por vezes, um artista é uma multidão, uma pluralidade, devido aos diversos vetores de ação e pensamento. É importante fixar isso quando nos deparamos com o trabalho de Daniel Santiago, principalmente pela maneira aberta e fluida com a qual ele transita por linguagens e questões e a forma como ele concebe arte. Há uma singeleza, despretensão em sua atitude diante da arte, algo como certa vez foi apontado pela artista gaúcha e ex-aluna de Santiago Maria Helena Bernardes como “uma arte que nem parecia arte, talvez sem o fosse”, que pode desconcertar os olhares mais “treinados” e as mentes mais conceitualmente orientadas.

            Apesar de ser bastante conhecido no meio de arte do Recife e de arte experimental no Brasil, Daniel Santiago ainda parece ser uma figura etérea. Por vezes ele é reconhecido como o artista das performances de rua, em outros momentos como o artista da Arte Correio ou o integrante da Equipe Bruscky & Santiago. Sim, ele é tudo isso, mas não só. Talvez o motivo das apreensões superficiais ou mesmo de sua invisibilidade na história da arte contemporânea do país, deva-se à ausência de pesquisas, publicações e mostras que transponham os critérios e as narrativas já estabelecidos que orbitam nos suspeitos de sempre e nos marcos artísticos do eixo Rio – São Paulo já naturalizados. Eu arriscaria dizer que a própria dinâmica do trabalho de Daniel Santiago que privilegia a ação e a experiência e que está desapegada de registros e de desejo de fetichização sejam grandes empecilhos à sua decodificação no ritmo voraz de consumo com o qual funciona atualmente o mundo da arte. Quando iniciei a pesquisa sobre seu trabalho juntamente com a curadora inglesa Zannah Gilbert (em 2012), seus trabalhos encontravam-se dispersos em sacos plásticos e em caixas por todos os cômodos de sua casa. Este dado é importante para compreendermos que seu comprometimento sempre foi com o fazer arte e não apenas com as esferas de legitimação e de reputação. E arte como vida, uma existência artística inserida no mundo cotidiano.

            Apesar de esta ser a primeira exposição individual de Santiago em São Paulo, por uma questão de espaço não é possível traçar uma panorâmica em que estejam presentes todos os contornos de sua multidimensional obra de mais de 50 anos. Por isso, busca-se enfatizar nesta mostra uma das vertentes mais marcantes de sua poética: o seu endereçamento às questões da poesia/poiesis e ao artifício. O título da exposição O que parece mentira é poesia foi retirado do vídeo O Plasma no interior da Magnetosfera (2009), um de seus trabalhos mais recentes e que faz parte de uma série de vídeos produzidos com webcamera e baixíssimos recursos tecnológicos e postados no site Youtube. A escolha ressalta não apenas o engenho de ficcionalizar mundos e inventar situações, uma maneira de vivenciar a liberdade, mas de expandir e atravessar linguagens e campos, como os da literatura, do teatro e da performance. Em boa parte dos trabalhos presentes nesta mostra, Daniel Santiago parece dialogar diretamente com Fernando Pessoa para quem o poeta é um fingidor. As psicografias artísticas de Santiago ligam-se não apenas ao poema Auto psicografia do poeta português, mas à própria tentativa de transferir para o outro o seu discurso. Diferentemente de Pessoa que criava autores fictícios e investia neles facetas de sua própria personalidade, Daniel Santiago tira partido dos artifícios da psicografia, do torpor letárgico e da encarnação de Augusto dos Anjos (estágios não racionais mas que passam pelo corpo do artista como veículo de comunicação) para definir performance. O “resíduo” das ações é o texto escrito, documentação pouco usual na performance. Não nos esqueçamos que estamos no território da invenção.

            A poesia para Santiago é carga ambivalente que abarca tanto a ironia e o humor quanto o desamparo e a fragilidade. Poderíamos também pensar a prática dele como uma espécie de poesia participativa, em que o poema é convite para o diálogo e a interação com o outro e com a cidade, a exemplo dos poemas inseridos na seção dos classificados do Jornal do Comércio (PE) do dia 16 de Julho de 1977. Num deles, o artista publica: “Interessa a alguém que numa madrugada de chuva eu fiquei olhando os pingos grossos pela janela da cozinha…”. A mensagem destoante do contexto da página de anúncios, atiçou os leitores e 15 pessoas responderam a este chamado ao diálogo. Em Ru-ao-objeto, o convite é para apreender a rua dos Navegantes, em Boa Viagem, no Recife, como um objeto artístico. Num postal, o artista repassa orientações para que qualquer um que esteja na capital pernambucana possa “performar” esta obra e vivenciar poeticamente a cidade. Na parte final das recomendações ele diz: “é preciso andar pela rua e não estar sentindo dor alguma, nem cansaço, nem fome, nem medo, nem sapato apertado. Saudade pode”. Para o artista, experienciar o mundo e enxergar a poesia do cotidiano requer ausência de privação ou sofrimento físico, mas suporta o sofrimento da alma. Trata-se de um trabalho em que não se precisa de registro ou de testemunha, mas basta-se na experiência e nela é perpetuado. A enganosa simplicidade de suas propostas artísticas parece ser uma maneira de segurar nossas mãos e nos fazer adentrar num estado de invenção permanente, em que não temos certeza de que é verdade, apenas de que é arte.

Cristiana Tejo

Lisboa, maio de 2015

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