Nara Amelia — O Melhor dos Mundos Possíveis

18 maio — 22 junho

 

 

Texto de Orlando Maneschy

 

Com fábulas entendendo mundos  

Um denso murmúrio ecoa das profundezas da floresta. De lá, pode-se perceber um grupo de espécimes animais a se relacionar, criando formas distintas de contato e interação. Ao observarmos com mais cautela, percebemos o emprego de certos objetos utilitários entre alguns dos indivíduos, a cooperação mútua e a capacidade de empatia, ou seja, a de identificação de sentimentos, pensamentos e comportamentos de outros sujeitos. Esta disposição caminha lada a lado com a construção daquilo que entendemos como cultura. São formas de organizações grupais cuja origem, no caso humano, funda-se há milhares de anos, quando começamos a construir processos coletivos até chegarmos às sociedades que estabelecemos nos dias de hoje.

 Entretanto, essa propensão a práticas que, ao longo da evolução de espécies como a nossa e de alguns primatas, como os macacos bonobos, são percebidas como manifestação de cultura, por meio de aptidões transmitidas de geração em geração, e que envolvem crenças, conceitos morais, normas e atitudes adquiridas em sociedade não se restringe à espécie humana. Para o cientista holandês Frans de Waal, doutor em biologia e professor de psicologia da Emory University, “A moral humana não foi inventada há dois mil anos, ela vem evoluindo, e os traços dela podem ser vistos em outros primatas.” Bonobos, chimpanzés, gorilas vêm sendo investigados em suas construções de léxico, bem como baleias, que organizam padrões sonoros, como cantos, com ritmos e notas.

 Ainda nos encontramos longe de conseguir desvendar o que nos separa dos nossos companheiros animais, seja dos primatas, com os quais compartilhamos cerca de 98% de DNA, seja de outras espécies, mas a constatação de sofisticada produção daquilo que se pode denominar cultura nos parece surpreender tanto quanto ao nos deparar com os animais fantásticos, como os que habitam mitos e lendas, e com a literatura produzida pelas mais variadas culturas ao longo da história da humanidade.

 É nesse território, nesse campo, que a elaboração artística de Nara Amelia se desenvolve, nessa fissura em que, ao pensarmos nossa humanidade, muitas vezes necessitamos ter como referência o mundo animal e, ao fazê-lo, não encontramos segurança, pois na corrida por aquilo que nos torna humanos há um desassossego, ao tomarmos o animal como parâmetro para nossa diferença. Diante disso, podemos pensar que nos encontramos sempre a caminho…, uma vez que estamos em meio a ininterruptos processos nos quais só observamos sinais aqui e ali. Para o filósofo tcheco Vilém Flusser, em seu ensaio “O chão que pisamos”, a cultura seria o território, essa base na qual nos encontramos sustentados, e o som oco, que ora parece ecoar de nossos pés, resulta da dificuldade de lidar com o mundo, com os abismos que criamos entre natureza e tecnologia. E nesses processos não estamos sozinhos, ao buscar encontrar um lugar para ser-no-mundo. Há uma incompletude presente nessa busca, sendo que, talvez, nesse lugar possamos pensar o que nos torna humanos.

Com seus animais fabulosos, hibridizados, camuflados, a artista aponta para estratégias presentes em nossas construções íntimas. Por vezes, parece assinalar para certo tipo de alegoria, mas ao apreciarmos atentamente o que vemos é outra coisa, algo que se estabelece na fissura, naquilo que esse outro nos convoca a olhar e que nos causa estranheza. Nara Amelia subscreve Unheimlich. Não se trata aqui do simples estranhamento visual proposto pelas figuras que a artista constutui, tampouco do que de fantástico seus personagens nos evocam, mas nos convida a olhar, como propõe Sigmund Freud, para o que nos é estranhamente familiar no que oferece em suas imagens. A bestialidade aparentemente em seus personagens nos conclama a observar o que vimos constituindo enquanto cultura. Pequenas frustrações, recalques, desejos são apontados pela artista em suas obras, que acenam para as nem sempre sutis situações enfrentadas na vida.

 Stummenheit (Mudez), Das Grosse Leid der Natur (O grande sofrimento da natureza), Benommenheit (Tontura), Träume Sind Schäume (Sonhos são como bolhas de sabão) são alguns dos títulos que nos apresenta, revelando uma constante inquietação diante do estar no mundo. Em uma das obras, um homem metade animal, mas trajando terno e gravata, traz sobre o corpo, preso por uma corrente, um veado morto. Sentado sobre o cervo, descansa a figura mitológica de um jovem fauno. Ladeando esta cena, grupos de símios tentam vestir a pele de um urso e de um boi-almiscarado, acompanhados por macacos voadores com asas artificiais. Aqui, certa aflição em torno de ideias como “equilíbrio”e “encaixe” atravessa as atitudes dos personagens, de forma que a relação com o mundo se apresenta sempre em questão.

 As palavras dispostas em alguns dos trabalhos podem avistar a relação com a literatura e com a filosofia, repletas de sentido que se estendem no intervalo entre a língua empregada e a tradução do sentido. Há uma intermitência presente na feitura de várias obras, em que Nara Amelia emprega exímia técnica de gravura; em outras, é o tempo que se descortina entre a realização de delicados desenhos e gravuras em finos papéis envelhecidos, que passam a ser associados uns aos outros, retirados de uma secreta gaveta de guardados. O tempo também se apresenta em certos vestígios de artesania utilizados na montagem de algumas obras, presentes em bordados, costuras e no emprego de peles de animais. Nada é gratuito na obra da artista. Nenhuma convivência é pacífica e, revela, com conjunto exposto em O Mundo é uma Fábula, com a fina ironia a questão humana-animal, coteja Martin Heidegger e convoca Agamben para, com este último, esgarçar questões metafísicas, pondo-as em aberto. Nessa fresta, ao elaborar com o tempo, Nara Amelia é consciente de que opera no meio, a caminho de…, lançando mão daquilo que os germânicos chamam de Trieb, que pode significar condução, pôr em movimento, instinto, ou seja, diferentes forças manifestas da Natureza. É com esse ímpeto que a artista opera, no entre (metafísica e niilismo/ animal e humano), chamando-nos a atenção, por meio de situações fantásticas, fabulosas (consciente de que elas não são possibilitadoras de vidas seguras e felizes), de que talvez a ética seja o caminho possível, buscando, quem sabe, o convite filosófico: nosce te ipsum (conhece a ti mesmo), mesmo que, para isso, seja necessário percorrer um caminho longo, sentir o crispar de peles falsas, carregar pesos mortos até que possamos nos deparar com o lugar de nosso exercício de Si.

 

Orlando Maneschy

 

 

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