Nada é de verdade mas tudo é real

Estávamos em São Paulo no início do outono, quando pela primeira vez me deparei com os livros-diários escritos por Dudu Santos.Jaqueline me mostrou alguns dos tesouros que carregava, e, após ter insistido, ela deixou que eu pegasse alguns dos livros para ler.

Logo me senti preso numa armadilha montada pelos livros que tinha em mãos. Um dos livros prendeu a minha atenção pela frase que tinha na capa “Pensamentos inúteis“… comecei a ler suas palavras e observações, acabei absorvido pelo que vi, pelo que percebi e pelo que senti. A personalidade e o carisma de Dudu saíram e travaram uma conversa comigo através das palavras que escrevera, as cores que escolhera, através dos desenhos que fizera com tanta paixão… Mergulhei nesta leitura repleta de imagens hipnotizantes que me fizeram iniciar, aquilo que agora recordo como uma viagem emocionante em direção ao trabalho do Dudu… Nada é de verdade mas tudo é real , Difícil escrever branco com tinta preta,  A inspiração é a memória da verdade … estas foram algumas das frases que me guiaram página após página, abrindo diante de mim um universo sem disfarce do artista que floresceu  ali, diante dos meus olhos. 

Após uma carreira de mais de 50 anos Dudu Santos (São Paulo, 1943), mantem-se fiel à suas ideias num âmbito em constante mutação e evolução, continua a ser uma figura solitária que se distingue numa posição de profunda resistência e autocrítica.   Uma vida vivida no isolamento que agora parece precioso e necessário para refletir e avançar profundamente na configuração da identidade artística .

Apartado de um mundo que parece negligenciar ou não ter respeito por vozes individuais, Dudu permaneceu em seus princípios, edificando uma obra de vida abrangente que ultrapassa a complexidade das pinturas tipo-expressionistas e ações performáticas pelas quais é conhecido.  Sua deriva pessoal contra a corrente moldou uma personalidade tipo intelectual forasteiro abundante em contradições que caraterizam suas posições fortes e pessoais como artista. 

Com uma abordagem honesta à prática da arte incutida por conhecimento genuíno, o artista construiu um personagem em permanente colisão com o presente num mundo onde fatos rápidos, e quiçá algumas ideias, viajem sem parar por mais de um minuto em nossas cabeças antes que colidam com nossos cérebros.  Materiais esquecíveis que circulam numa trajetória infinda por canais diversos e que têm por alvo alcançar o seu segundo de importância para, em seguida, ser simplesmente descartados até que o novo seguinte chegue. 

Um fenômeno efêmero que evita a experiência e a memória, portanto em desacordo com a abordagem e entendimento de mundo do Dudu. Conhecendo tão bem quanto conhece a natureza humana, ele não tem muita esperança na mesma, como perito na matéria o artista não espera nada do mundo nem do espectador; na verdade, pelo contrário, está aberto a expor-se ao mesmo tempo em que busca confrontar o contemplador com ideias esquecidas e situações que, talvez possam auxilia-los a perceber o que são e onde estão. 

Palavras, livros, pinturas, telas são os verdadeiros companheiros do Dudu nos dias passados no isolamento do ateliê, trabalhando e retrabalhando as mesmas ideias e conceitos num processo sem fim que revela a magnitude de uma vida de exploração.  Dudu desenvolveu uma obra resoluta através da qual revisa todas as suas realizações dos últimos anos, demonstrando, consequentemente, o inconformista que é, o artista não se permite alcançar um ponto tal onde possa sentir-se satisfeito com as constatações alcançadas e obras executadas. 

Dudu não está numa posição fácil, não se permite, e nem permite os outros, reduzirem-se a clichés previsíveis meramente por ter selecionado a pintura como meio de transmissão de suas ideias.  As palavras e a escrita têm se tornado cada vez mais importantes no seu trabalho cotidiano e considero que sejam elementos chave para o entendimento de toda a dimensão de sua obra. 

Nestes textos o artista revela suas reflexões e ideias mais profundas, refletindo de maneira precisa como se sente e pensa o mundo que habita, o que é e o que não é relevante para si, de certa forma ele revela e exibe sua intimidade corajosamente. A mera beleza de seus pensamentos alimentada pela filosofia, poesia e também suas inquietudes politicas e sociais mescladas a desenhos e colagens, criando livros heterodoxos que emergem como declarações poderosas.   Ao adentrarmos este material que nos compele, o universo singular do artista desvenda-se diante de nós, permitindo compreender seu legado vibrante e incisivo. 

Pela primeira vez, nesta que é a sua terceira exposição na Galeria Jaqueline Martins, estarão expostos livros produzidos pelo artista nos últimos anos e mais importante ainda, teremos a oportunidade de vê-los em relação a outras obras significativas provenientes de diversos períodos de sua produção, permitindo assim que o espectador aprecie a natureza enigmática e intrigante da obra multifacetada do Dudu. 

Francisco Salas

 

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