Equipe3 1973 — 2014

30 agosto — 15 outubro

Curadoria de Isobel Whitelegg

 

 

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Lydia Okumura Pontos de vista 1973 XII Bienal Internacional de São Paulo

 

 

 

Em outubro de 1973, Francisco Iñarra (1947-2009), Lydia Okumura (1948) e Genilson Soares (1940) participaram da XII Bienal Internacional de São Paulo, como Equipe3. Descreveram seu trabalho, Pontos de Vista, como “um jogo de interferência mútua”. Utilizando o espaço alocado como ponto de partida, os três artistas lançaram-se na exploração da dinâmica entre produção individual e coletiva, e transformaram sua seção da Bienal em um espaço entre a realidade e a ilusão.

Sob a premissa de que cada ação individual gera uma reação, os artistas travaram uma batalha abstrata de linha, plano e sombra a fim de produzir um novo espaço compartilhado. O feixe de tinta branca de Genilson, que se estendia a partir de uma parede cinza-degradê em direção ao chão criou o pano de fundo para um objet trouvé (ou objeto encontrado) – uma grande pedra no chão. Francisco, por sua vez, transformou a pedra real de Genilson em uma imagem flutuante dentro do espaço virtual que criou, redesenhando o limite entre o piso e a parede em um dos cantos. Em outro canto, Lydia demarcou um plano triangular e o transformou em um volume que parecia projetar seu espaço interno para fora. Essa imagem foi espelhada com um prisma de planos e sombras produzidos por Genilson em sua representação da prancha encostada na parede adjacente.

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Francisco Inãrra Pontos de vista 1973 XII Bienal Internacional de São Paulo

Equipe3 foi um dos diversos grupos de artistas brasileiros a propor projetos coletivos para essa edição da Bienal, e Pontos de Vista reflete um momento marcante na história do evento. O boicote internacional de 1969, no auge da repressão da ditadura militar, alterou profundamente o sistema de representação da Bienal. Proposta original de Mário Pedrosa, presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), o boicote ganhou força com a produção e circulação internacional de um dossiê de evidências da repressão e da censura cultural. O boicote teve a adesão de artistas do mundo inteiro – inclusive de vários convidados a representar o Brasil e que, naquela época, residiam na Europa. A solidariedade internacional, porém, não foi igualada por consenso no Brasil, onde a opção de boicotar ou não a Bienal foi tema de intenso debate. O crítico Mário Schenberg per- maneceu na posição de curador da seção de artistas brasileiros convidados, incluindo Mira Schendel e Claudio Tozzi (cuja obra foi alvo direto da censura).      

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Genilson Soares Pontos de vista 1973 XII Bienal Internacional de São Paulo

Conforme diminuiu a participação daqueles que atingiram reconhecimento internacional nas décadas anteriores, a Bienal abriu espaço para uma geração de jovens artistas brasileiros. Para a Equipe3, e muitos outros artistas, a Bienal da década de 70 representou não só uma oportunidade de obter prestígio mas um espaço para trabalhar criticamente e à parte do crescente mercado de arte. A nova ênfase da Bienal na prática experimental a aproximou dos salões regionais e concursos abertos, usados por esses jovens artistas como laboratório para testar seus trabalhos nos anos 1970. Com participações em eventos como o Salão de Arte Contemporânea de Santo André e Jovem Arte Contemporânea (JAC) no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), Francisco, Lydia e Genilson desenvolveram uma forma de trabalhar em conjunto que testava, de forma lúdica, as estruturas físicas e burocráticas das instituições que os abrigavam. 

O primeiro projeto coletivo proposto, Lanchonarte (1971), tinha a intenção de criar um espaço para a distribuição de obras baratas feitas com materiais comuns. Incluir Os Excluídos (1972), projeto do grupo para a JAC VI, foi um desvio intencional às regras da exposição – que naquele ano distribuiu espaços para os artistas elegíveis através de sistema de sorteio. Equipe3 decidiu subverter esse sistema a fim de permitir a participação de qualquer artista, independentemente da idade ou nacionalidade e, também, transferir a ênfase da exposição da obra pronta para o processo de produção. Lydia foi a única participante da Equipe3 a ganhar espaço próprio no sorteio; em vez de expor sua obra individual, os três artistas negociaram mais dois espaços extras, os quais foram usados para interpretar as propostas submetidas por seis artistas não-residentes: Daniel Buren, Jacques Castex, Sérvulo Esmeraldo, Jannis Kounellis, Arthur Luiz Piza e Erika Steinberg. O espaço antes alocado a Lydia foi deixado vazio e aberto para uso do público. 

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Equipe 3 Pontos de vista 1973 XII Bienal Internacional de São Paulo

Em contraposição aos trabalhos dos demais grupos da XII Bienal, Pontos de Vista não lançou mão de uma crítica sócio-política explícita. Com a criação de um jogo de realidade e ilusão, entretanto, a obra desses artistas desconstruiu sutilmente a existência dual do pavilhão, tanto como palco de prestígio internacional quanto espaço físico definido. Equipe3 transformou o pavilhão em estúdio temporário e plataforma para a reprodução de dinâmicas sociais na escala íntima do trabalho em equipe. Um importante aspecto da proposta original dos artistas foi a sala de documentação fotográfica, escondida atrás do espaço principal. A intenção era subverter o tempo predeterminado da obra final, através do registro do processo de produção e da documentação das intervenções realizadas durante o período da exposição. Apesar dos registros fotográficos e escritos constarem dos arquivos da Equipe3, uma dimensão da instalação de 1973 permanecia indecifrável até agora. Pontos de Vista não foi concebido apenas como um jogo do qual participariam os três artistas. Como ocorreu em outros trabalhos produzidos pela equipe, tanto de forma individual quanto coletiva, a intenção era perturbar o senso de percepção espacial e temporal do espectador. Através da re-leitura de Pontos de Vista, realizada após quatro décadas e dentro de um espaço arquitetônico diferente, Lydia e Genilson assumem o risco de testar a realidade da premissa original, e convidam uma geração diversa de espectadores a participar de um jogo de interferência mútua.

Isobel Whitelegg é Professora Catedrática de História da Arte & Estudos de Exposição na LJMU/Curadora de Pesquisa da Tate Liverpool

 

 

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