Distant waters

 

Em sua primeira exposição individual na Galeria Jaqueline Martins, o artista libanês Charbel-joseph H. Boutros apresenta uma constelação de trabalhos mais antigos e outros recentes. Trata-se de investigações genuínas postas em prática que operam fluidamente entre as categorias convencionais de escultura, instalação e performance.

A partir de uma instalação compreendendo diversas mídias, o local expositivo é transformado em uma interface, onde obras independentes passam a gerar interrelações complementares, espelhamentos e intersecções. A prática de Boutros centra-se na produção de situações experienciais que oferecem ao público ambientes imersíveis que engajam ativamente a percepção e a memória.

A exposição reflete ainda o caráter performativo da obra do artista, o seu poder de atuar sobre o domínio cognitivo, sensorial e afetivo. Dada a natureza fragmentária e a carga simbólica dos trabalhos, estes apresentam
inúmeros pontos de derivas possíveis. Logo, o visitante é instigado a criar as suas próprias interpretações, associações e imagens mentais. Ao modular a apresentação e a proximidade entre elementos muito sóbrios, mas altamente alusivos, Boutros explora analogias latentes e oscilações entre o visível e o invisível. Bem como, as relações entre presença e ausência, tangível e volátil.

Tomemos como exemplo A Removed Stone: por meio de uma pedra e um conciso texto descritivo, uma paisagem e um período são evocados. A pedra foi retirada de uma floresta do Líbano onde o artista costumava brincar e vagar na infância. O trabalho refere-se a algo que ultrapassa a representação: uma lugar distante e um episódio que escoou, com toda a sua heterogeneidade experiencial, no fluxo temporal. Aqui é exposta uma brecha no que é oferecido de imediato ao olhar. Não obstante, é justamente essa lacuna que faculta ao observador um excedente de significados potenciais.

Um aspecto fundamental desta obra é o fato de que a pedra atua como um ready-made que não foi extraído do mercado de bens de consumo. Historicamente, o ready-made problematizou a definição de arte impondo-se entre objetos comerciais e artísticos. Por fim, esta operação conferiu-lhe a condição definitiva de objeto de arte, mas no caso da pedra, ela ocupará apenas provisoriamente este lugar. Neste trabalho, bem como em outros, Boutros lida com um discurso estético que também demanda a imaginação e pressupõe um conhecimento da história da arte no qual ele reflexivamente se situa.

Após o encerramento da exposição a pedra retornará à sua paisagem nativa – e, com isso, o trabalho perderá uma parte essencial e seu componente metonímico. Estruturalmente, a futura omissão material espelha a condição de incompletude simbólica da obra, visto que esta funciona simultaneamente como significante visual e linguístico. Além de nos fazer indagar o que tal ausência significará para a condição ontológica ulterior do trabalho. Em decorrência disso, outras questões são levantadas. Qual será o status da pedra depois que for devolvida ao local de procedência? Ela carregará consigo uma memória imperceptível? Permanecerá a mesma, mas acomodando em si um outro constitutivo? Em outras palavras, ela ganhará um novo anel e com isso será acrescida de uma alteridade alheia à sua identidade primária? Além disso, A Removed Stone funciona como uma metáfora para a condição de deslocamento do imigrante e para a negociação constante entre as mudanças ocorridas na sua natureza e no contexto sociogeográfico originário.

Em suas ações e relações com coisas ou objetos, Boutros parece reagir e mostrar-se atento ao que Walter Benjamin minuciosamente expôs em um ensaio muito peculiar, Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem dos Homens. Neste texto, ele reflete sobre a linguagem silenciosa, mágica e material das coisas. Tais como, a da montanha, da lâmpada, da pedra, da raposa, etc. Em uma determinada altura da sua exposição, Benjamin lança, entre outras, a pergunta: “E quem irá traduzir essas linguagens?”

Outro trabalho incluído na exposição, Days Under Their Own Sun, consiste em folhinhas de calendário que foram expostas ao sol em lugares específicos, com os quais o artista mantém laços afetivos. Uma questão central neste trabalho é que as folhas de calendário representam e contêm, por assim dizer, diferentes sóis e dias que pertencem agora ao pretérito. Assim como a série Today, de On Kwara, Days Under Their Own Sun envolve igualmente a consciência pessoal e histórica de um lugar e de um momento. Porém, enquanto uma obra foi executada à mão com uma precisão calculada, a outra é basicamente o resultado da ação contingente da radiação eletromagnética emitida pelo sol em diferentes dias.

Toda vez que Days Under Their Own Sun for exibido reagirá à incidência local de luz artificial ou natural. As folhinhas, devido à sua natureza fugidia, se assemelham aos esmaecidos cartões postais de lembranças. Elas são relíquias, traços vestigiais do que se foi. As sucessivas exposições irão alterá-las, transformando-as em um registro cinético, em uma imagem que não é fixa, de um processo de expansão indiscernível. Isto traz à mente o que Henri Bergson destacou em Matéria e Memória: “Praticamente, nós só percebemos o passado, sendo o presente um processo invisível no qual o passado morde o futuro.”

Devido às várias lâminas e a coexistência não-hierárquica de tópicos entrelaçados nas obras de Boutros, as realidades socio-políticas são abordadas mediante uma ótica oblíqua. Em Drink Europa e em No Light In White Light, por exemplo, ele funde gestos conceituais com elementos autobiográficos, geopolíticos e líricos.

Drink Europa alude à União Europeia por intermédio de um copo de água contendo 28 quantidades idênticas de água proveniente dos países membros. Nisto, as diversidades culturais e políticas de 28 Estados-nação são simbolicamente dissolvidas, como se as porções individuais de água invisivelmente absorvessem umas as outras num processo de “fagocitose coletiva” – termo usado por Roger Caillois em seu ensaio Mimetismo e Psicastenia Legendária. O copo e seu conteúdo não exibem outra coisa senão as suas matérias transparentes, mas paradoxalmente indicam algo que aparentemente não pode ser articulado em imagens distintas. Assim sendo, o trabalho leva a uma reflexão sobre a arbitrariedade e a supremacia da Comunidade Econômica Europeia enquanto idealização de unificação e de ausência de fronteiras.

No vídeo No Light In White Light, um sacerdote sírio lê, durante o crepúsculo em uma floresta no Monte Líbano, a gênese em Aramaico até que a sua imagem seja totalmente tragada pela espessa escuridão da noite. Ele ocupa um espaço liminar entre o dia e a noite. Esta cena intensifica a sensação de algo fantasmagórico, de um passado que revela-se na forma de um espectro para subsequentemente evanescer. O vídeo reúne diferentes temporalidades e assinala a discrepância entre o agora do Aramaico e o outrora da sua complexa história socio-cultural. E, dessa forma, propõe um olhar sobre o passado, que não é somente conduzido por um desejo nostálgico, mas exprime uma intenção crítica de reexame histórico. Esta obra abole excluas temporais uma vez que transpassa o arcaico, o contemporâneo e o futuro.

Outrora, vários dialetos do Aramaico foram falados especialmente no Monte Líbano e norte do país. A maioria dos nomes das vilas e das cidades libanesas deriva do Aramaico, incluindo a vila Bickfaya, onde vivem os pais do artista. Esta evidência demonstra que o passado está indelevelmente tatuado no presente e atesta que a memória possui uma geografia. Além disso, No Light In White Light incorpora visões pessoais, coletivas e politicamente afetivas de uma memória cultural particular.

O paradoxo é um elemento recorrente na obra de Boutros. 1 CM3 Of Infinite Darkness e No Light In White Light claramente sugerem isso. No primeiro andar da galeria o visitante encontrará um minúsculo cubo sobre um pedestal no meio de uma sala banhada por uma luz assaz tênue. Devido à substância da obra, a atmosfera umbrosa é incorporada ao ato de visualização da mesma. A opacidade da iluminação parece ter evadido enigmaticamente da obra para vir permear o tom do lugar, cingindo-o de mistério.

Ao justapor o físico e o metafórico 1 CM3 Of Infinite Darkness apresenta tensões auto-contraditórias. O diminuto cubo abriga, no seu interior composta de planos espelhados, um breu infindo. Ao evocar o insolúvel e, aparentemente contradizendo-se, o trabalho vai além do crível e representável abrindo um espaço singular para a percepção daquele que o aprecie. Referindo-se a este trabalho, Boutros explicita que a ausência de luz é, também, uma alusão a um certo descontentamento com o presente histórico.

Rotineiramente, ao processarmos informações, utilizamos atalhos mentais que se adequam aos padrões do que já conhecemos e acreditamos. Este procedimento amiúde reforça e gera julgamentos, visões restritas e distorcidas da realidade, e das coisas. Os trabalhos mencionados anteriormente juntamente com vários outros, formam uma galáxia de atalhos alternativos que desafiam e expõem limites perceptuais e cognitivos.

 

Hercules Goulart Martins

 

 

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