contra o estado das coisas — anos 70

28 agosto — 04 outubro

 

 

Curadoria de Mirtes Marins de Oliveira

 

Durante a década de 1970, Lydia Okumura (1948), Genilson Soares (1940) e Francisco Iñarra (1947-2009) compartilharam esforços em ações coletivas. Trabalharam, entre 1970 e 1974, sob a denominação de Equipe3, e posteriormente – quando Okumura mudou-se para Nova York –, Soares e Iñarra formaram a dupla Arte/Ação, que atuou até 1977. 

Em “contra o estado das coisas – anos 70” está presente uma pequena parte das fotografias e documentação produzida pelos três artistas durante a década de 1970. Mostrar esse material, histórico e em grande parte inédito, proporciona uma avaliação sobre os matizes políticos da produção artística no período da ditadura. Da alienação, passando pelo engajamento, até a militância, o que parece recorrente àquela geração é a prontidão para dar respostas à obviedade dos processos – artísticos, sociais, políticos – estabelecidos. 

São apresentados desde os documentos de Lanchonarte, projeto inscrito para o Salão de Verão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1970) até o último encontro dos três artistas em 1979, na exposição Three Brazilian Artists, na Cranbrook Academy of Art Museum, em Michigan (EUA). Estudio Actual Gallery (Caracas, 1975), SESC Dr. Vila Nova (1971), Museu de Arte Contemporânea de Campinas (1972), entre outros, foram espaços culturais que receberam as intervenções ambientais de Equipe3 e Arte/Ação. Mas sem dúvida, o lugar no qual o diálogo mais se expande e aprofunda é o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), talvez, mais propriamente o edifício de Oscar Niemeyer, no Parque Ibirapuera.

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Lydia Okumura / Equipe3 Incluir os Excluídos  JAC – Jovem Arte Contemporânea 1972

Relação que se inicia com a participação de Equipe3 em V Jovem Arte Contemporânea – JAC (1971), retomada em 1972, com Incluir os Excluídos. Na VI JAC – a histórica JAC dos lotes – Equipe3 abre mão dos exercícios individuais para interpretar e apresentar projetos enviados por outros artistas que não conseguiram ser contemplados na divisão dos espaços do Museu: Jannis Kounellis, Jacques Castex, Daniel Buren, Érika Steinberg, Sérvulo Esmeraldo e Arthur Luiz Piza. 

A participação de Equipe3 nas JACs levou ao convite para a XII Bienal de São Paulo (1973), com o trabalho Pontos de Vista, ocupação ambiental que propunha correções de perspectiva. Em Pontos de Vista, a utilização da câmera fotográfica para registro do processo contribui para o estabelecimento de uma lógica que solicita ao visitante posicionamentos específicos no espaço para que a dinâmica lúdica se imponha.  As imagens resultantes ampliam a compreensão da instalação, já que apresentam o processo e a performance empreendida pelos artistas na instalação. 

Com a mudança de Lydia Okumura para Nova York (1974), Soares e Iñarra passam a desenvolver Arte/Ação, que, no mesmo ano, propõe para a Bienal Nacional de 1974, Num Espaço Apertado. Novamente a fotografia está presente como base para o efeito hiperrealista e também para o desdobramento performático dos artistas junto à instalação, em um processo contínuo de sobreposições de significados para o trabalho. A crítica institucional é geradora dessa ação, uma resposta irônica ao espaço designado, inadequado ao projeto inicial que apresentaram. 

Arte/Ação aprofunda a parceria com o MAC-USP, demonstrando um alto grau de intimidade com a instituição em ações apropriativas de artistas do acervo, em especial com obras de Shihiro Shimotani, Giorgio de Chirico e Marino Marini.

Evento com a pedra Event                 Arte/Ação 1975

Arte / Ação Evento com a pedra Event  1975

Inimagináveis em 2014, Evento com a Pedra Event, Encontro da Pedra Event e por fim Presente de Natal e Ênfase à Escultura compõem uma série de trabalhos conectados entre si que demonstram tanto a fragilidade institucional quanto sua abertura para novas formas de ação artística. Abertura emblematizada principalmente na figura do diretor Walter Zanini (1925-2013), ao estabelecer, ou aceitar, o atrevimento dialogado proposto por Soares e Iñarra.

Um dos pontos altos de Arte/Ação é o processo de constituição de Ways/Caminhos, vivência dos artistas durante os três meses que antecederam a Bienal de São Paulo, em 1977. Além de intervirem no trabalho do artista japonês Kiyoshi Awasu (Obrigado, sr. Awasu), Arte/Ação realiza uma operação de deslocamento no ambiente do edifício de Niemeyer, documentado unicamente por fotografias. Os sutis deslocamentos de objetos e dejetos deixados no prédio vazio podem ser compreendidos como comentários – epígrafes ou notas de rodapé – reflexivos sobre a arquitetura moderna, e da mesma forma, sobre a instituição Bienal.  

Dessa vivência intensa, restaram registros fotográficos usados como base para novos projetos (Projeto para Bienal) ou para criar essas narrativas de processo apresentadas em painéis, como na abertura da Bienal de 1977. Da perspectiva atual, o que se verifica nesses artistas – Equipe3 e Arte/Ação – é um estado de inquietude e prontidão para ocupar espaços disponíveis nos difíceis – e ainda obscuros – anos 1970. Às chamadas de trabalhos e inscrições para expor em museus, ou nos tradicionais salões, responderam com contrapropostas, que conjecturam sobre instituições e imposições do mercado. Respostas que eram também convites para que os espectadores participassem de um jogo de descobertas e ironias, que também exigiam a desconstrução de percepções estabelecidas. Colaboraram, como todos os envolvidos nas JACs, para repensar o papel do museu, em momento em que o próprio conceito de obra de arte é negado e o establishment colocado em xeque.

Essas contrapropostas, por vezes, chegam aos limites da ambiguidade: ao mesmo tempo que – em Equipe3 – avançam contra a transformação da arte em mercadoria e propõem sua democratização – em seus aspectos espirituais – por meio do próprio consumo (1970), Soares e Iñarra não receiam em afirmar o documento – o que restou da vivência – como objeto do mercado artístico, valioso pela informação que contém (1977). 

Neoarte.net / Soluções fotográficas para o mercado de arte.

Arte/Ação Arqueologia do Urbano 1977 IXV Bienal Internacional de São Paulo

Sua intensa atividade foi praticamente ignorada, nos anos 1980, pelo mote do “retorno à pintura” imposto por um circuito cujos valores apontavam para a despolitização, e que se voltava para um mercado ativo, produtor e consumidor, mais jovem e que desconsiderava produções de caráter conceitual.

A possibilidade de reavaliar a trajetória de Okumura, Soares e Iñarra é também localizar as contradições do circuito artístico nos dias de hoje e colocar em xeque a noção ambígua de documento e suas formas de exibição.

 

Mirtes Marins de Oliveira

 

Agradecimentos: Lydia Okumura, Genilson Soares, Vitor César, Ronaldo Duschenes, Ana Maria Farinha, Tatiana Gonçales, Lisette Lagnado, Gastão de Magalhães, Ana Maria Maia, Marcos Moraes, Paola Prestes.

 

 

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