Bill Lundberg – Uma terminologia na linha

 17 fevereiro — 24 março

 

Já lá se vai mais de uma década, desde que escrevi um ensaio para um catálogo que acompanhava a exposição Bill Lundberg: Sintaxe da ilusão. A exposição serviu como uma reapresentação de Lundberg, pioneiro no campo das instalações com vídeos e filmes. À época o artista residia em Austin, lecionava na Universidade do Texas, e ocultava-se sob as sombras da paisagem da arte contemporânea. Sua obra, dotada de um poder inato que desvela as emoções humanas, contudo, persistira. Estudei na Universidade do Texas em Austin, onde Lundberg lecionara, na altura, porém, nem ele, tampouco sua obra me eram familiares. Quando da sua residência artística no internacionalmente renomado Artpace, em San Antonio, Texas, fui finalmente exposto ao artista e sua obra. Convidei Lundberg a expor sua obra no Museu de Arte Contemporânea de Houston em 2001; a mini-retrospectiva foi protagonizada por suas obras que cobriam quase trinta e cinco anos do artista no campo, além de uma obra nova que iniciara durante sua estada em San Antonio.

48-Passengers installation 1981Uma pequena amostra dos desenhos de Lundberg também foi posta em exibição. Algumas destas obras em papel serviram de estudo para as instalações do artista, enquanto outras constituíam plenas obras de arte. Surpreendeu-me descobrir durante a organização da mostra que Lundberg nunca antes exibira suas obras em papel, que constituíam um verdadeiro tesouro de esquemática exigente, e também explorações na forma e composição. Embora a magia do espetáculo seja frequentemente atribuída às instalações de filme e vídeo de Lundberg, são seus desenhos, porém, que desconstroem a sintaxe de suas ilusões, oferecendo a audiência a possibilidade de fugazmente bisbilhotar a mente do artista. Lundberg criou obras em papel durante mais de cinco décadas, a duração de sua carreira artística até o momento. Neste período, o artista desenvolveu o seu vocabulário visual que deslocou-se, foi desmembrado e reconstituído, assim como sua obra em instalações de vídeo e filme.   Semelhante às instalações, Lundberg desenvolveu uma terminologia em linha; o peso e construção de suas obras em papel servem para corroborar com as narrativas fragmentadas da obra e a imagem em movimento ou, pelo contrário, manifestar um só pensamento ou observação.   

Com formação original como pintor, os desenhos de Lundberg são testemunho da sua gênese artística.   Tanto seus primeiros desenhos quanto os mais recentes estão imbuídos de uma certa sensibilidade pintural, em especial no uso que o artista dá ao guache e a aquarela para “encenar” um ambiente emocional ou simplesmente delinear o espaço.   Seus desenhos também fazem alusão ao gosto que o artista tem pela composição, que é por vezes solta e etérea e outras mecânica, no que tange a sua denotação gráfica. Através da alternância entre composições esparsas e densas, Lundberg emprega o quadro bidimensional em ambos os casos para meditar sobre a natureza do espaço, seja físico ou emocional. Dado o fascínio que o artista tem pela natureza humana e a interação humana, ele literalmente atrai o espectador para dentro do quadro ou por meio de uma narrativa, com a coreografia do movimento por arquitetura imaginada ou real.   O que é, no entanto, fundamental para os desenhos de Lundberg, é sua insistência em revelar as verdades psicológicas que amalgamam a sociedade contemporânea.

Profundamente afetado pelas mudanças na paisagem cultural, social e política dos anos 60, Lundberg buscou desafiar as divisões prevalentes não somente da sociedade, mas também da produção artística. O artista primeiro deslocou sua atenção da pintura e passou à arte performática, o filme, então, enfatizou seu desejo de capturar o etos do momento e quiçá a consciência do engajamento. O enfoque específico do artista na natureza humana e interação humana, tanto no nível macro quanto micro, é representado em partes iguais: poética e sistemática. Na sua obra sobre papel, o uso de tintas, guache e aquarela compõem a dimensão poética, um humor ou peso emocional às linhas meticulosas que permeiam a página. Seus primeiros desenhos da década de 1970 contêm traçados rápidos usando grafite e lápis de cor, são acompanhados por proliferas anotações e instruções para produção. Esta característica transporta-se para outras obras criadas em décadas subsequentes, sem, no entanto, excessiva anotação, provavelmente porque nas décadas seguintes Lundberg refina sua arte como artista de instalações. Estes primeiros desenhos servem notoriamente como estudos para produção, pois Lundberg está ciente de sua nova arte como cineasta e de seu papel tanto como produtor do objeto/ambiente visual quanto do conteúdo emocional daquele engajamento ambiental. Exceções a estes primeiros desenhos gestuais são Oceans (1975) e Outlook (1979), que apresentam-se como um detalhamento completo com desenho arquitetônico e/ou anotações impressas. Outras obras, tais como Mutual Projection (1976) e Double Projection (1979), dão uma impressão mais reminiscente do Construtivista russo Alexander Rodchenko, de quem a integração da imagem, política e até mesmo o engajamento com o cinema do inicio dos anos 1920, constituiu uma fonte substancial para as primeiras obras de Lundberg. Com formação educacional como pintor, Lundberg teria conhecimento sobre Rodchenko e do impacto que o construtivista viria a exercer sobre outros movimentos artísticos expansivos que conscientemente desafiavam a rigidez das disciplinas e também das prevalentes ideologias sociais e políticas.

Com a evolução da obra década após década, os desenhos de Lundberg e suas obras em papel passam a ter uma construção bem mais frouxa. Enquanto que Lundberg torna-se mais astuto na produção de suas instalações, seus desenhos servem para iluminar o perfil conceitual da obra do artista e não as suas construções mecânicas.   Obras como Discord (1986) 42-Discord drawing 2 -1980e Clown Projection (1986) são representações do equilíbrio em deslocamento nos desenhos de Lundberg: embora sejam ambos estudos para instalações, denotam uma consciência da obra como algo além de um processo e mais como um objeto autônomo. Esta mudança apresenta-se com a emergência de um amainamento na prática do artista. Ao deixar Nova Iorque a meados dos anos 1980, Lundberg vê suas oportunidades para exibir instalações minguarem, passando então a lecionar. Por consequência, muitos dos desenhos provenientes deste período e seu desfecho subsequente assumem mais uma função de peças individuais do que estudos. A qualidade espacial frouxa e esparsa de obras como Animal Children (1986) tipificam esta mudança, embora Lundberg nunca descarte ideias para instalações futuras. Suas viagens ao Brasil e parceria com uma das pioneiras conceituais no país, Regina Vater, também deixa uma marca indelével na obra. Lundberg permanece prolífico na criação de obras, mas, é somente a partir dos anos 1990 que suas instalações de filmes e vídeos começam mais uma vez a ganhar força na paisagem da arte contemporânea. Os desenhos deste período e adentrando ao novo milênio são fusões de décadas passadas, alternando entre desenhos autônomos, estudos gestuais, e representações arquitetônicas, tais como Opening Projection Plan (1998) e Skiis (1990).

A partir do ano 2000 Lundberg já não é mais reticente quanto a exposição de suas obras em papel. Sou então, galardoado com o papel de catalisador de suas considerações sobre esta coleção de obras como sistemas metódicos de pensamento e gesto. Desde sua aposentadoria do ensino e mudança para o Brasil, o artista tem se dedicado a tempo integral ao arquivamento e contínua criação de novas obras. A confluência do passado e presente é profunda nesta apresentação dos desenhos que representam traços visíveis da narrativa própria do artista, fragmentada porém ressonante. Nós, espectadores, somos os beneficiários da tenacidade de Lundberg neste campo, agora com cinco décadas e continuando na contagem. Enquanto seus desenhos às vezes servem como planta para suas palavras ilusórias produzidas em filme e vídeo, também canalizam o funcionamento interno de uma mente poética e profunda, perseverante no conhecimento de que nossa humanidade se pendura num equilíbrio precário que, quem sabe um dia ainda nos unirá.

 

Valerie Cassel Oliver – Curador Sênior

MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE HOUSTON

 

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189-Clown projection  no date  Watercolor  pencil 60x45.5cm

 

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19-Red Pony, 1991

 

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