Batalhão de Telegrafistas

03 julho — 16 agosto

 

 

Curadoria de Tobi Maier e Fernando Oliva

 

Alexandre Brandão
Almandrade
Andrzej Dudek-Dürer
Anna Bella Geiger
Charbel-joseph H. Boutros
Chris Marker
Edgard de Souza
Francesca Woodman
Ilene Segalove
John Kelsey
Karin Sander
Mario Ishikawa
Moyra Davey
Naná Mendes da Rocha e Serguei Dias
Roberto Winter
Walead Beshty
Ze Frank

+ trabalhos selecionados dos arquivos de Gastão de Magalhães, f.marquespenteado e Luiz Guardia Neto

 

 

 

Batalhão de Telegrafistas entende a Arte Postal como um movimento global baseado no intercâmbio entre artistas e na construção de redes marginais de comunicação. O livre uso dos serviços de correio, máquinas de fax, impressões e fotocópias – modos de criação e compartilhamento de ideias e projetos artísticos ­– constitui o cerne dessas ações. Desde a transição dos anos 50 para os 60, elas se anunciam não só como uma prática, mas uma tomada de posição diante da sociedade e do sistema da arte.

Mesmo que a tecnologia da informação tenha deslocado seus parâmetros em direção ao universo digital, e que essas redes não carreguem o mesmo grau de dinamismo que as mobilizava antes do advento da internet, algumas questões essenciais se mantiveram e se renovaram em direção ao presente. Procedimentos colaborativos e participativos, compartilhamento, acesso incondicional à informação, à livre circulação e distribuição, subversão, resistência ao controle e hierarquias dos canais oficiais foram desde o início suas palavras de ordem, mas também o destino e a utopia da Arte Postal.

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Mario Ishikawa Torneio Democrático 1980

Ela representou uma das tentativas mais ambiciosas e bem-sucedidas de se colocar em marcha, em escala internacional, uma atividade que pudesse acontecer para além dos roteiros convencionais, e que unisse os artistas em torno de uma estratégia coletiva, essencialmente não autoral, em uma arquitetura de rede. No Brasil, a prática amadureceu durante a ditadura militar (1964-1985) e, para inúmeros artistas que viviam e trabalhavam no país, era a única forma de contato com seus pares e outros circuitos pelo mundo. Dentro de um contexto político carregado de tensão, ela também funcionava como instrumento de crítica e denúncia.

Em sua tentativa tanto de recuperar e apresentar obras hoje consideradas históricas, como de pensar sobre parte da produção atual a partir de algumas ambiências em torno do que ficou conhecido por Arte Postal, Batalhão de Telegrafistas não se pretende um resgate nostálgico – ou mesmo uma “atualização”, fadada ao fracasso – daquele vibrante momento heroico do passado. Em tempos de controles cada vez mais sofisticados, sobre o que se pensa e o que se comunica, é importante refletir sobre o que se perdeu e o que se manteve da natureza e da ética dessa prática criada por artistas, constituída em torno de um ato tão essencial e humano quanto radical, subversivo e anárquico: enviar uma mensagem para outra pessoa e, quem sabe, convocá-la a agir.

 

 

 

Batalhão de Telegrafistas parte de obras que integram arquivos de artistas brasileiros participantes de diversas redes internacionais de Arte Postal, caso de Gastão de Magalhães, f. Marquespenteado e Luiz Guardia Neto, cujos acervos apontam para uma constelação de muitos outros nomes.

Entre os itens raros localizados, a mostra exibe o cartaz da The Fourth Metaphysical Telepathic Exhibition (Quarta Exposição de Telepatia Metafísica, 1986, Breslávia), organizada por Andrzej Dudek-Dürer em torno de dezenas de nomes de mais de 30 países pelo mundo. O artista polonês, que se considera a personificação de Albrecht Dürer, costuma tocar instrumentos como koto e sitar para receber o espírito do grande pintor alemão do século 16. Os sons ouvidos nessa exposição foram produzidos pelo próprio artista, em gravações feitas nos anos 1980, que em seguida as disponibilizou para sua rede postal em fitas cassete.[1]

 

Andrzej Dudek-Dürer Trecho da obra sonora  Metaphysical-Telepathic Music, Now You are Talking… Lado A Anos 1980

 

Almandrade, artista, poeta e arquiteto radicado em Salvador, Bahia, foi integrante do grupo de artistas criador do movimento Poema/Processo e um dos fundadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia, que editou a revista Semiótica, em 1974. Desde a década de 1970, ele produz um trabalho voltado ao conceitualismo e à estética minimalista, tendo boa parte dele transitado pelos correios nacionais – caso do envelope lacrado que enviou para amigos no ano de 1973, cuja palavra no interior só se revelava à contraluz (um clássico método espião), quando se lia “psiu”, uma referência ao controle do sistema político sobre o discurso no período ditatorial brasileiro. 

É evidente que a Arte Postal não se resume a simplesmente enviar obras pelo correio. Ele é a própria mídia, suporte e, em alguns casos, também coautor do que se cria. Esse é o caso das “pinturas postais” de Karin Sander, que carregam as marcas oficiais dos correios em seus deslocamentos pelo mundo; das “esculturas fedexadas” de Walead Beshty, objetos frágeis que são danificados pelo transporte e assim são apresentados quando chegam ao destino final; e das “fotografias postais” de Moyra Davey.

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Moyra Davey Glass SP-NY 2012

Após uma visita a São Paulo, em 2012, Davey realizou uma nova série de obras relacionadas à cidade, e quatro delas são exibidas aqui.Entre as fotos, que foram dobradas algumas vezes e enviadas pelo correio, sem a proteção de um envelope, vemos uma maquete artesanal do MASP (Museu de Arte de São Paulo); uma aranha aprisionada sob um copo (referência à imensa aranha de Louise Bourgeois confinada na área externa envidraçada do Museu de Arte Moderna de São Paulo); e um conjunto de equipamentos de som que se assemelha à arquitetura caótica da cidade.

A ação de Roberto Winter opera internamente a nova ordem do comércio global de produtos, uma das últimas fronteiras em que os serviços de correio tradicional ainda não se tornaram obsoletos. A partir de um site de vendas chinês que oferece milhares de itens por um valor ínfimo, com capacidade para entregá-los gratuitamente em qualquer parte do mundo, o artista escolheu um objeto que reforça uma posição ambígua e nebulosa, característica das posturas políticas da atualidade e da dificuldade em representá-las: a máscara Anonymous/Guy Fawkes, que foi enviada para parte do mailing da Galeria Jaqueline Martins à guisa de convite, ou de alerta.

O projeto inédito Volta, de Alexandre Brandão, constrói representações a partir de uma relação entre a residência do artista, agências de correio de São Paulo e a prática da deriva. Brandão faz alguns percursos aleatórios pela cidade, de ônibus, em direção a essas agências e, de lá, endereça para si mesmo uma carta, cujo conteúdo são os desenhos desses trajetos, agora expostos. 

A Edgard de Souza interessam as mudanças pelas quais passa uma imagem ao transitar entre máquinas e mídias. Dele apresentamos um trabalho de 1998, desde então nunca exibido, criado com base no uso combinado da fotografia e do fax. As imagens (composições feitas a partir do envio e reenvio das fotos produzidas por meio desse dispositivo) mostram, em uma série de autorretratos, a figura do artista em constante movimento – sozinho, em duplas ou trios, formados pela repetição de si próprio. Espécie de emissão-recepção fora do tempo, suas presenças etéreas evocam o corpo espectral da tecnologia, fantasmas que não sabemos se vêm do passado ou se projetam em direção ao futuro. Como diria Derrida: “O fantasma, sou eu”[2]

Com a globalização e a invasão da tecnologia da informação em nossas vidas, atualmente os serviços postais servem progressivamente ao fluxo global de mercadorias e bens de consumo, e menos à comunicação pessoal. Os trabalhos de John Kelsey aludem às formas como nos relacionamos por meio do uso de dispositivos manuais, que nos conectam remotamente a servidores de dados. Seja vivendo na mesma cidade ou nos relacionando a distância, é lá que nossos sentimentos se encontram.

A arquitetura móvel do objeto criado por Naná Mendes da Rocha e Serguei Dias se assemelha a um “nó” de comunicação. É um servidor portátil, uma sonda urbana voltada à coleta e difusão de conteúdo e do conhecimento livre. O dispositivo instaura uma rede local e permite o acesso a um banco de dados na internet, grava vídeos, faz trocas de arquivos a partir de dispositivos wi-fi e transmissões em tempo real.

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Chris Marker Stopover in Dubai 2011

Stopover in Dubai, de Chris Marker, se apropria de múltiplas gravações CCTV disponibilizadas por meio
da GNTV e da Segurança de Estado de Dubai, e demonstra os métodos da mídia de rede empregados para a vigilância em massa. O filme mapeia os movimentos de várias pessoas que estiveram supostamente envolvidas com o assassinato de Mahmoud Al-Mabhouh, em 19 de janeiro de 2010, em um quarto de hotel de Dubai. Marker deixou as edições originais, legendas e gráficos intactos, mas trocou a trilha sonora do programa de notícias por uma composição escrita por Henryk Górecki. O trabalho é uma representação arrepiante sobre como a tecnologia nos é imposta. Ele desmonta um aparato de poder e demonstra que, apesar de não podermos acessar essas pessoas que assistem a nossos movimentos diários, as gravações que suas máquinas produzem não são tão fugazes e inocentes como se poderia supor.

 

 Fernando Oliva e Tobi Maier

 

 

 

[créditos : ]

Pesquisa e catalogação do acervo Luiz Guardia Neto: Paula Borghi

Pesquisa e catalogação do acervo Gastão de Magalhães: Lucas Oliveira

Edição de material sonoro: Bruno Palazzo

 

[1] O lado A da fita apresenta Metaphysical-Telepathic Music, Now You are Talking…, na qual Dudek-Dürer toca o koto, um tradicional instrumento japonês. No lado B ouvimos “514 Anniversary of the Birth of Albrecht Dürer, World Performance, 21.V.1985”, e o artista se apresenta com o sitar indiano.

[2] A frase é dita por Jacques Derrida em entrevista à atriz Pascale Ogier para o filme “Ghost Dance” (1983), do diretor britânico Ken McMullen. http://www.pileface.com/sollers/article.php3?id_article=1074#section1

 

 

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