Ana Mazzei — Se Disser Que Fui Pássaro

21 maio — 21 junho 


Curadoria de Maria Montero 

 

 

Manto 2014

 

Encarnar num corpo com a sabedoria de voar.

Olhar com minúsculos-rápidos-potentes músculos a cidade avistada de cima.

A complexidade das emoções humanas condensadas para se adequarem ao formato bicho pequeno sem boca. Corpo-cor, penugem.

Vista do céu, a cidade é pura geometria, traço, linha, paleta cromática.

Materialidade em movimento agora estática por conta da distância assumida. Terra, água, sangue, arquitetura, pessoas e pássaros. Desenho concreto.

Seria essa a experiência corpórea de Ana Mazzei?

Dimensão de artista, que um dia pássaro, enxergou a terra a uma distância tal que, assim como a pele, a superfície era camada fina e semi-transparente, e portanto era possível avistar de longe suas profundezas.

Escavando compulsivamente, o mundo dos vivos e dos mortos veio à tona, tornando-se palco onde pululam escombros.

“The world’s a stage” (Shakespeare) é influência latente. Disparador que ativa diversas encenações possíveis.

Não são, entretanto, os esgotos do homem o foco de sua atenção. Seus aparelhos de avistamento apontam para a cidade, para aquilo que está por baixo dos tecidos urbanos, camadas profundas de outros séculos, desenhos escondidos pelos asfaltamentos da cidade moderna.

São sim linhas e planos. Mas não se trata apenas de um exercício de formalização. É vital para seu trabalho carregar-se de carga simbólica, folclores, mitos, mortos.

Cidades-estruturas feitas em madeira, borracha e feltro. No seu processo de feitura, ela toma emprestado do teatro procedimentos construtivos, tanto estéticos quanto conceituais: dramaturgia, uso de atores, palco, representação.

Essa família de cidades habita o segundo andar da galeria, onde a exposição começa. Sim, começamos por cima, num exercício de imaginação que requer alto grau de desprendimento, concentração e silêncio.

Do alto, provavelmente entraremos pela fenda da janela, ou por qualquer outra fissura, já que fomos pássaro.

Algo abrupto e inesperado acontece. No instante exato de aterrisagem tornamo-nos outra vez homem, o que nos possibilita caminhar pelo espaço e descer as escadas.

Ainda naquele segundo andar, ou o homem se agigantou ou a cidade encolheu, subindo pelas paredes feito erva daninha.

Conjunto de conjuntos habitando um território comum.

Com as pernas já não mais habituadas a andar, enferrujadas pelo desuso, descemos lentamente as escadas, acordando os músculos esquecidos, até nos depararmos com a cortina.

Manto mostra uma grande cortina de veludo laranja que nunca se abre para o público; nada se vê além do sutil movimento dos atores no palco atrás dela.

O véu. Novamente a pele nos separando de uma outra realidade (ou ficção) possível.

A verdade que não se apresenta, não se desvela. O mito de Alétheia.

O discurso velado, silenciado.

Alter, o outro: único modo possível de aproximação do divino.

Essência versus aparência, a recuperação da dignidade do mundo sensível.

Saímos pela porta do térreo em direção à rua. O homem, outrora pássaro, depara-se com a escultura que, agora, considerando a perspectiva humana, vê-se grandiosa.

O quadrante, penetrável medieval, dispositivo de avistamento que calcula a distância por meio de uma organização geométrica, serve ao participante; uma experiência de navegação que nos leva ao desconhecido, ao extracorporal.

“A experiência é o que em nós se vê quando nos vemos, o que em nós se pensa quando pensamos, o que em nós se fala quando falamos. É sair de si e entrar no mundo, e é também uma volta para nós mesmos.”[1]

Dali de dentro daquele aparato se avista o céu, seus azuis e seus pássaros.

Empresta seu corpo ao mundo!

Durante todo o percurso da exposição, anotações ganham qualidade pictórica. “Faço minhas anotações como se contasse uma história, pois quando criança aprendi, em minha terra natal, que o deserto cresce e encobre desertos e que as histórias são uma só”.[2]

A utopia de Benjamim tem coragem de gozo[3], inventa absurdos, não tem chance de aplicação, é minuciosa, imagina horários, lugares, práticas, inventa-se com cor, precisão, absurdez mesmo.

Parece que, se tivéssemos coragem para captar com melhor precisão as potências dos desejos utópicos, poderíamos imaginar que fomos pássaro, ao menos nesses breves momentos de leveza, abstração e fantasia. Livres da censura dos poderes redutores da realidade plausível.

 

 

Maria Montero 

Maria Montero é curadora independente, artista, produtora executiva especializada em exposições, e galerista. Nasceu, vive e trabalha em São Paulo. Cursou Art Psychotherapy na Goldsmiths College, em Londres (1998), e atualmente estuda Arte: História, Crítica e Curadoria, na PUC-SP. Trabalhou com Relações Institucionais na Galeria Luciana Brito (2009-2010), foi curadora da primeira versão do Red Bull House of Art (2009) e coordenou o projeto Abotoados Pela Manga, ao lado de Franz Manata (2010). É fundadora e gestora do Phosphorus, espaço independente voltado para práticas experimentais, com foco em residências artísticas e na crítica dos processos. Desde 2011 Phosphorus realiza exposições, residências, workshops e projetos especiais em parceria com galerias, colecionadores e artistas. O espaço foi contemplado nos anos de 2012 e 2013 pelo ProAC (edital de Apoio a Espaços Independentes do Estado de São Paulo) e desenvolve desde então o projeto Residência Phosphorus. É também diretora e fundadora da Sé, galeria de arte localizada no mesmo prédio do Phosphorus.

 

 

[1] CHAUÍ, Marilena. Experiência do pensamento: Ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty, São Paulo: Martins Fontes, 2000

[2] Ana Mazzei, 2014

[3] BENJAMIN, Walter. “Sobre alguns temas em Baudelaire.” In: Obras escolhidas vol. 3: Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 3. ed. Tradução de José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 111

 

 

reprodução fotográfica de obra de arte / artwork reprodution.

 

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