Opfer

Yan Xing

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Opfer

Yan Xing

  • Período
  • 13.08 — 13.10.2018

  • Abertura
  • 13.08 — 15 horas

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 Yan Xing escolheu o título alemão Opfer como uma faca de dois gumes para sua primeira exposição na América do Sul. 


Opfer (sacrifício/vitima) pode ser considerado uma homenagem ao último filme de Andrei Tarkovsky, The Sacrifice (1986), que conta com Alexander, um ator de meia-idade e intelectual, como protagonista que sofre com o holocausto nuclear iminente e a desarmonia em sua própria família. O filme começa com a introdução da obra A Adoração dos Magos de Leonardo da Vinci, concluída em 1481 e exibida nas Galerias Uffizi desde 1670. No seu centro, a pintura apresenta a Virgem Maria com a criança no colo sentada embaixo de uma alfarrobeira, e rodeada por um grupo de observadores masculinos e femininos. O pano de fundo introduz um mundo pagão contrastante com lutadores romanos a cavalo e trabalhadores reparando a Basílica de Maxêncio em ruínas, que supostamente desmoronou na noite do nascimento de Cristo. A câmera de Tarkovsky retorna à pintura várias vezes e, assim, estabelece o trabalho como referência. Uma cena do protagonista – plantando uma árvore ressequida juntamente com o seu filho mudo Little Man – segue imediatamente. O espectador, então, testemunha a relação afetuosa entre filho e pai, que explica ao menino mudo que “Não existe algo como a morte, apenas o medo da morte”. Ao longo do filme, o protagonista de Tarkovsky se aprofunda na depressão e, provocado pelos conselhos de seu mensageiro Otto, que se autoproclama colecionador de “incidentes inexplicáveis, mas verdadeiros”, torna-se cada vez mais desesperado, até que ateia fogo na residência de sua própria família. 


Yan Xing se inspirou nessas duas obras históricas e transformou sua narrativa e essência em sua própria linguagem com uma série de obras inter-relacionadas e produzidas em São Paulo. Similar ao estilo de Tarkovsky, que realizou uma redução significativa de cores para The Sacrifice, a exposição apresenta uma visão sombria. O piso de granilite é uma citação da obsessão de Tarkovsky com pisos de pedra, muitas vezes cobertos de água, e os terrenos úmidos de lama que aparecem em The Sacrifice. Um par de jeans e uma camiseta fazem alusão a uma ação anterior à abertura da mostra, assim como as temerosas visões de Alexander de pessoas fugindo no meio de ruinas. A instalação do térreo dá lugar ao trabalho de vídeo de Yan Xing, filmado num cruzamento no bairro de Vila Buarque e apresentado no segundo andar da galeria. Uma parede de vídeo reminiscente de outdoors anuncia a interação roteirizada e improvisada de sete atores, à medida que recebem notícias sobre a perda de um familiar querido ou apontam para um ódio ao banqueiro que passa. Uma pintura em preto e branco, inspirada na obra O Aqueduto (1885), de Paul Cézanne, contesta essas histórias entrelaçadas. Mais uma vez somos confrontados por um grupo de árvores traçadas na tela. Produzido durante um momento íntimo para o qual o artista convidou um homem paulista a controlar e perturbá-lo, a peça acrescenta mais um laço ao seu romance fictício, sacrifica o mito do artista como gênio e o degrada a vítima de sua própria exposição. Um conjunto de três desenhos produzidos ao lado de serigrafias reflete o interesse do artistas pela história do design e da literatura e reintroduz o título da exposição Opfer em uma fonte parcialmente gótica.  


Assim, se a decisão delirante de Alexandre de incendiar sua casa foi o sacrifício que liberou o filho mudo das repressões de uma vida familiar discordante, isso pode não ter impedido ambos de uma terceira guerra mundial. Correspondentemente, a homenagem de Yan Xing nos leva a uma jornada através de um conto de humilhação e agonia, oferecendo a oportunidade de compreender a arte como um veículo que expressa a escuridão inerente à condição humana. Assim como o prédio que abriga a exposição do artista, podemos escapar do seu feitiço, mas o apocalipse do centro de São Paulo ainda nos pode pegar.


texto por Tobi Maier

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1:1 | Diagrama para Atentado

Deyson Gilbert & Leopoldo Ponce

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1:1 | Diagrama para Atentado

Deyson Gilbert & Leopoldo Ponce

  • Período
  • 04.08 — 13.10.2018

  • Abertura
  • 04.08 — 14 horas

  • Curadoria
  • Bruno de Almeida
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Diagrama para Atentado (ou como explicar a síndrome de Gerstmann para coelhos e patos) [i]

 

Na sala do acervo médico do Museu Santa Casa de São Paulo, localizado no Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, expõem-se equipamentos e artefatos antigos relacionados a especialidades clínicas e cirúrgicas pertencentes à história dessa instituição de saúde. Ali mostra-se também uma ilustração que retrata o atentado de 1897 contra o então presidente do Brasil, Prudente de Moraes. No espaço de exposição da Galeria Jaqueline Martins expõe-se uma série de elementos cuja escolha e composição advêm de uma interpretação dessa ilustração. Ambas as salas possuem lógicas expositivas complementares e os objetos apresentados nelas encontram os seus correspondentes formais, simbólicos e/ou semânticos nas peças do outro espaço. Tais correspondências são aprofundadas nas informações compiladas no fichário disponível para consulta no Museu.

 

A ilustração, publicada num jornal de sátira política da época, [ii] é a única imagem que retrata a tentativa de assassinato a Prudente de Moraes,o primeiro presidente por eleição direta do Brasil e o primeiro civil a assumir o cargo. [iii] O desenho mostra o episódio do dia 5 de Novembro de 1897, durante uma cerimônia militar no Rio de Janeiro na qual o presidente recepcionaria os batalhões que retornavam vitoriosos da recém-acabada Guerra de Canudos. Reza a história que durante esse evento, um soldado, Marcellino Bispo de Melo, saiu da multidão e avançou contra Prudente de Moraes, apontando-lhe um revólver ao peito. Acionou o gatilho algumas vezes mas a arma inexplicavelmente falhou. Com a sua cartola, qual passe de mágica, o presidente desviou a mão armada do agressor. Este foi rapidamente agarrado por membros da comitiva presidencial mas ainda assim conseguiu puxar de um punhal e lançar-se sobre o presidente. Marcellino acabou por golpear fatalmente o Ministro da Guerra, Machado Bittencourt pois este protegia Prudente de Moraes, que escapou ileso. O soldado agressor foi preso e tempos depois encontrado enforcado na cadeia. Especula-se que ele tenha sido apenas uma peça de uma conspiração política maior, encabeçada pelo então vice-presidente Manuel Vitorino Pereira. [iv]

 

O “diagnóstico”da ilustração que documenta o atentado à vida do presidente faz-se através da correlação entre um grupo de artefatos destinados à preservação da vida e saúde, e uma série de objetos que transcendem a esfera prática dos usos. O primeiro grupo, os equipamentos médicos exibidos no acervo do Museu Santa Casa, não só narra a memória dessa instituição mas também remete a uma noção mais ampla da relação entre o Homem, a Ciência e a tecnologia em prol de um “bem-comum”. A “verdade”, o “conhecimento” e o “rigor científico” exalam da estrutura classificatória e padronizada que rege a disposição dos equipamentos pela sala. Um sistema de rótulos e verbetes interpõe-se entre as coisas e o espectador, funcionando como uma lente que mitiga a opacidade do discurso médico e orienta a interpretação leiga. Os artefatos expostos têm as suas funções firmemente definidas a partir dos códigos (objetivos, neutros e universais) das convenções médicas de outrora.Paradoxalmente, os significados atuais desses objetos não são mais “fixos”, já que a peculiaridade das suas formas e o seu estado de obsolescência possibilitam inúmeras outras interpretações e associações que escapam ao determinismo científico.

 

A ilustração do atentado a Prudente de Moraes é exposta aos visitantes do acervo médico encaixada num aparelho de raio-x de 1920, tal qual uma radiografia. Na chapa radiográfica as estruturas internas de um corpo aparecem sobrepostas no plano bidimensional. A imagem revela o invisível mas a justaposição das partes oculta determinadas relações entre elas. A “dissecação” da ilustração do atentado é “tridimensionalizada” na sala de exposição da galeria Jaqueline Martins, mas, contrariamente a uma “reconstituição da cena do crime,” ali não se efetua uma reprodução simulada dos fatos. Os sujeitos, objetos e ações representados na ilustração são citados através da combinação de objetos/imagens reconhecíveis com outros elementos cujo sentido é indeterminado. As explicações prescritivas escapam aos textos que se interpõem entre os objetos e o espectador. As coisas e suas associações não procuram significados “fixos” nem se guiam por parâmetros objetivos. Mas a sua presença no espaço (neutro, a-histórico e universal) da galeria de arte, lhes garante uma filiação a uma série de convenções legitimadas outrora. A lógica interna a cada um dos elementos e a estratégia de organização do “todo” esboçam correspondências com a sala do acervo médico do Museu, mas simultaneamente recusam uma sobreposição exata.

 

Esse “deslizamento” cria fissuras e lapsos na justaposição mental de ambos espaços e propõe formas de “ver-além” das narrativas dadas pela ilustração do atentado de Prudente deMoraes. A correlação entre coisas de tempos e temas aparentemente desconexos revisita tanto a história oficial quanto o imaginário social coletivo; alude a crenças e mitos populares assim como aos cânones da História da Arte; cita o rigor científico mas também beira o ocultismo; expõe determinados assuntos enquanto encobre outros, e possibilita a ponderação sobre situações cujas relações de causalidade não se podem comprovar de forma estritamente objetiva ou factual. Relações que não têm lugar nas narrativas oficiais, nos compêndios de ciência, na historiografia positivista, na atual economia das imagens, nem na crescente polarização de posições e opiniões.

 

A vontade de “ver-além-de” está na gênese de vários equipamentos médicos e científicos, mas as capacidades projetivas e subjetivas da visão escapam ao diagnóstico dos aparelhos oftalmológicos, predominantes na sala do acervo médico do Museu. [v] Fenômenos cognitivos de percepção tais como a capacidade de enxergar formas ou mensagens em lugares onde não foram inscritas intencionalmente, ou em discernir padrões, significados e conexões em configurações aparentemente aleatórias, foram, durante séculos, consideradas pela ciência médica como sendo perdas de contato com a realidade ou como sintomas de psicose e de outras patologias mentais. Tais interpretações para “além da imagem” podem ocorrer em indivíduos física e mentalmente saudáveis e levá-los a uma adesão cega a uma hipótese que passa a ser considerada como verdade sem qualquer tipo de critério objetivo de verificação. [vi] Em contrapartida, podem também configurar-se como estratégias para engendrar alternativas críticas aos esquemas prevalecentes num determinado contexto. Dado que toda crítica das condições atuais depende da premissa básica de que a realidade poderia ser diferente, como é que tais projeções interpretativas das percepções podem ser desenvolvidas como parte de um engajamento efetivo? Onde e como se nutre a capacidade de enxergar além do que supostamente devemos ver? Como é que se provoca um modo deliberadamente “oblíquo” de olhar? E quais são as suas consequências? [vii]  

 

“Um dia talvez saberão que não havia arte, mas apenas medicina.” [viii]


Bruno de Almeida, Julho 2018



[i] A síndrome de Gerstmann é um distúrbio neurológico caracterizado por quatro sintomas principais: dificuldade de se expressar pela escrita; dificuldade de compreender matemática;incapacidade de distinguir os dedos das mãos e a desorientação em relação à esquerda e à direita. / A ilusão do pato-coelho é uma imagem ambígua que ora parece um pato ora um coelho. A primeira versão foi publicada na revista de humor alemã Fliegende Blatter (Out. 23, 1892,p.147)

[ii] Jornal ilustrado Don Quixote (1895-1903), publicação brasileira editada e ilustrada pelo desenhista Angelo Agostini

[iii] Moraes representava a ascensão da oligarquia cafeicultora e dos políticos civis ao poder nacional,após um período de domínio do poder executivo por parte dos militares.

[iv] Após o atentado Prudente de Moraes decretou "estado de sítio", medida que lhe permitiu suspender os direitos constitucionais,neutralizar a oposição política e assegurar o predomínio dos interesses da oligarquia cafeicultora na política nacional.

[v] Entre eles estão: aparelho usado para fotografar o fundo do olho (início do séc. XX); eletroímã para extração de ciscos metálicos do globo ocular; amblioscópio para medir o ângulo de um estrabismo (1953), entre outros.

[vi] Resultando, por exemplo,na criação de superstições, crenças no paranormal, na formação de estruturas religiosas, de teorias de conspiração, entre outras.

[vii] GROOM, Amelia, “What might this be?” in De Appel Reads #8, De Appel, Amsterdã, Países Baixos, 2018

[viii] LE CLÉZIO, Jean-Marie Gustave, “Haï”, Éditions Albert Skira, Suíça, 1971.

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