Torneio Democrático

Mario Ishikawa

Torneio Democrático

Mario Ishikawa

  • Período
  • 23.09 — 28.10.2017

  • Abertura
  • 23.09 / 14h

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texto por Yudi Rafael



Ninguém te ouvirá no país do indivíduo 


Em Desentranhando futuros , Suely Rolnik fala sobre as condições dadas no contexto de certas propostas artísticas dos anos 1960 e 1970, na América Latina, para superar uma cisão existente entre a micro e a macropolítica, convencionalmente separadas entre as figuras do artista e do militante. A autora identifica estas condições no modo como, nesta produção, “a questão política se coloca nas entranhas da própria poética”, forçada por tensões próprias a incidência da ditadura no corpo sob a forma de uma atmosfera cotidiana opressiva, onipresente e difusa, que se resulta traduzida em uma força de contágio na obra. 


Na produção de Mario Ishikawa, é sintomático, a imagem do corpo se faz constantemente presente: seja fragmentado em mãos e gestos comunicantes, em órgãos, como os olhos, cérebros e pênis; seja no corpo do esportista, no feto protegido no interior do útero, no agressor com cassetete, em corpos sob a mira de uma arma, em manifestações e corpos insurrectos que povoam a totalidade do mapa do Brasil, no vestígio de uma impressão digital; seja traduzido em estudos ‘biotypológicos’ ou mesmo identificado em fichas ‘para uso do carteiro’, que fazem alusão aos corpos desaparecidos, aprisionados ou dilacerados. 


Durante os anos 1970, em meio ao ambiente de forte propaganda política do governo militar nos meios de comunicação de massa, com sua celebração otimista da harmonia social, da integração, do orgulho e da grandeza nacional, Mario Ishikawa produzira uma série de trabalhos gráficos em que se apropriou de slogans, imagens e símbolos do regime, por meio de operações de decomposição e recomposição, recombinando-os em outros arranjos. Neste processo, o artista os abriu criticamente, seus usos e intenções, a leituras desviantes e outras possibilidades de significação. 


Enquanto o país vivia o apogeu do ‘milagre econômico’, a máquina repressiva da censura e da tortura se intensificaram, fazendo-se sentir também nos espaços das galerias, dos salões e bienais de arte. É um momento de boom do mercado de arte brasileiro, com o investimento especulativo e a hiper-valorização das obras de artistas consagrados do passado, configurando uma situação onde a lógica de gerenciamento de bens e assinaturas se impôs. Mario Ishikawa afasta-se do circuito oficial de exposições, dedica-se a docência, e se lança em experimentações com meios de reprodução de baixo custo e formas alternativas de veiculação direta de trabalhos. Sob o signo da clandestinidade, as mensagens codificadas do artista circulariam em uma rede de confiança, de mão em mão e via correio, percorrendo circuitos artísticos e afetivos transnacionais para estabelecer canais de diálogo subterrâneos. Por meio destes, o artista e seus pares construíram uma ‘comunidade lingüística’ viva. 


A possibilidade de novos diálogos se coloca no presente, quando seu trabalho é revisitado frente a experiência de uma nova geração de artistas que, ao enfrentar as forças de lógicas mercantis e midiáticas na arte, seus limites institucionais e outros dilemas da contemporaneidade – com intensidade e inventividade análogas – re-conectam as dimensões política e poética em suas práticas. Como observa Rolnik, é necessário indagar sobre tal fusão hoje, cujas estratégias de resposta as imposições do novo regime de opressão sobre o terreno da arte envolveriam derivas extra-disciplinares. Um êxodo, argumenta, no qual a colaboração entre artistas e ativistas permite um trabalho de interferência crítica cujos efeitos de transversalidade se podem sentir em ambos os terrenos, engendrando “outros meios de produção da arte como também outros territórios de vida”. 

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