The gallerist, the letter and the garden

Charbel-joseph H. Boutros

The gallerist, the letter and the garden

Charbel-joseph H. Boutros

  • Período
  • 09.02 — 16.03.2019

  • Abertura
  • 09.02 — 14 horas

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A exposição é concebida como um jardim onde cada parte, ou lote, é delimitada por um tapete. Separadas por áreas vazias de concreto, suas fronteiras são delimitadas por um inesperado percurso.


Em The gallerist, the letter and the garden, a exposição é tratada como material maleável que Charbel-Joseph H. Boutros utiliza para elaborar parte das obras. Ele amplia a estrutura usual de uma exposição para um corpo orgânico cujos membros, ou elementos, são ativos e participam na fabricação da poética dos trabalhos. Relações atípicas são estabelecidas entre as obras, artista, galeria, galerista e público; elas seguem novos padrões e juntas constituem um esquema de exposição ambicioso, complexo e sempre em evolução. Uma miríade de situações surreais resulta das interferências provocadas e são convidadas a coexistir de uma maneira delicada. Boutros narra e orquestra estes cenários aparentemente díspares. Catwalk, uma passarela elevada e dedicada apenas à galerista e sua equipe, cria um estranho espetáculo junto ao público da galeria. Geography and Abstraction converte o peso físico da galerista Jaqueline Martins em um cilindro de concreto de peso equivalente. Posicionado embaixo do primeiro tapete da exposição, o corpo da galerista é duplicado e materializado em uma escultura estática, que permanece em repouso enquanto ela se desloca simultaneamente pela passarela. The exhibition between us seleciona dois visitantes aleatórios, o primeiro e o último a visitarem a exposição, cujos nomes, assim como as datas de início e término da mostra, serão entalhados em duas peças de mármore separadas para este fim. A ocorrência efêmera do evento/exposição passa a estar contida em algum lugar entre as duas peças, juntas elas formam uma instalação improvável composta por partes tanto visíveis quanto invisíveis.


A galerista e sua equipe encontram-se em constante estado de performance durante todo o período da exposição, uma vez que Catwalk é a sua única forma de acessar o espaço. Instalada nas bordas da galeria, a passarela abraça a exposição e pode ser vista como um pedestal, objeto entendido meramente como elemento espacial estruturante, mas cujo modus operandi é ambíguo: sacraliza seus usuários ao elevá-los acima de tudo e de todos, concedendo-lhes uma perspectiva melhor; ao mesmo tempo que estabelece, porém, uma distância entre eles e os visitantes que vagueiam pela exposição – ou jardim – abaixo, algo que só eles tem o privilégio de experimentar diretamente. Esta estrutura ligeiramente arrebatadora pode ser lida como uma torre de vigilância horizontal, assim como gerar sentimentos controversos de proteção e dominação. A percepção da galerista e dos membros de sua equipe muda constantemente: eles transmutam-se de vigias em modelos, em dançarinos, talvez até em pregadores... A interpretação de papéis é claramente um jogo proposto pelo artista, cujas regras a galerista e o público poderiam sem dúvida escolher ignorar. Questões de fé e confiança, recorrentes no trabalho de Boutros vem novamente à tona, deixando o sucesso da performance a cargo da vontade dos jogadores.


A passarela é também uma linha condutora que navega paralelamente aos outros territórios da exposição; efetivamente, The gallerist, the letter and the garden articula-se por cima e por baixo de cinco “palcos”, em diferentes níveis: o piso de concreto, duro e frio - sobre o qual estão instalados os dois (frios) recipientes metálicos cheios de água e lágrimas de I stood in the middle of the strait of Gibraltar and dropped my left tear in the Atlantic Ocean and my right tear in the Mediterranean sea – os três macios e confortáveis carpetes que oferecem ao público uma folga do contexto estritamente urbano da galeria, ao mesmo tempo que transporta-os à atmosfera invernal do local de onde o artista veio para preparar a exposição – e a passarela em si. Estas superfícies de diferentes naturezas são como solos de diferentes composições, preparados para cada uma das instalações. Os carpetes, mais especificamente, estão impregnados de intenções específicas: o primeiro celebra a galeria, que estimula e dissemina a arte; o segundo celebra uma carta de amor – a primeira que o artista recebeu de sua namorada – e o terceiro celebra um jardim, que o falecido pai do artista cultivava. A exposição desdobra-se como um conto autobiográfico em torno destes três tópicos fundamentais: arte, amor e finitude, entrelaçando o íntimo e o emocional com linhas universais mais amplas, como as históricas, políticas e geográficas.


Se The gallerist, the letter and the garden estabelece distinções e homenageia pessoas específicas, celebra igualmente as aleatórias, como na supracitada obra The exhibition between us, monumento a dois estranhos que associa o evento planejado a essas presenças arbitrárias, tornando o acaso algo a ser lembrado. Com esta homenagem, seguem-se muitas outras: no segundo carpete, assistimos em uma tela de laptop o filme Under the shadow of your fingers, que mostra as mãos de uma mulher digitando. Não são outras senão as da namorada do artista, re-digitando seis anos depois a primeira carta de amor enviada por ela a ele. As palavras formam-se virtualmente, permanecendo indecifráveis para o público. O e-mail também foi impresso e é exibido coberto por cera para preservar o suporte e proteger seu conteúdo. Eventualmente, o calor da cidade poderia derreter o instável material, assim como em outras obras de acabamentos similar presentes na exposição, tais como Night Cartography #3 e Untitled until now. A cera usada provém sempre de pedaços roubados de velas votivas, repletas de desejos e anseios dos crentes. Aqui, ela age magicamente na carta de amor, para que as promessas trocadas sejam cumpridas e durem eternamente. A homenagem continua no texto da exibição, escrito pelos mesmos dedos, desta vez contendo as promessas do artista para o público.


Finalmente, um dos tributos mais marcantes em The gallerist, the letter and the garden está no trabalho The soil of modernity, que mostra um armário cheio de terra trazida de Brasília para o artista. Ele não visitou pessoalmente a cidade – a encarnação das teorias modernistas do século passado. Nem jamais visitará, na esperança de manter a predominância da utopia sobre a realidade. Quando a exposição acabar, a terra será transportada ao Líbano e espalhada no jardim citado anteriormente, situado nas montanhas libanesas e legado pelo pai do artista à sua família. A terra da cidade imaginada será misturada à do jardim do vilarejo libanês – intensificando talvez sua fertilidade ou influenciando sua natureza – tornando-se definitivamente indistinguível desta e tornando-se parte integral de frutas, vegetais e flores que nela cresçam. A homenagem é direcionada à cidade modernista, mas ainda mais para o pai do artista, cujo jardim a terra nutrirá. Em Life, variation #2 um bloco geométrico de concreto apresenta um vão na forma orgânica de uma fruta. Na cavidade vazia encontram-se sementes da mesma fruta que foi usada para moldar o recipiente. Elas sobreviveram à ausência da fruta e podem potencialmente brotar, permitindo que a forma original seja restaurada... estas relíquias preciosas contêm mais uma promessa, a da persistência através do ato criativo.


— Stéphanie Saadé




Stéphanie Saadé (1983, Líbano) é artista baseada entre Beirute, Paris e Amsterdam.


Charbel-joseph H. Boutros (1981, Líbano). Vive e trabalha entre Beirute, Paris e Amsterdam. Em seu trabalho, a invisibilidade é carregada com camadas íntimas, geográficas e históricas, encontrando linhas poéticas que se estendem além do domínio das especulações e realidades existentes. Tendo nascido no meio da guerra libanesa, sua arte não se apoia explicitamente sobre uma reflexão política e histórica explícita - sendo, na verdade, “permeada” por uma reflexão política e histórica inevitavelmente presente nos gestos e objetos propostos pelo artista. H. Boutros foi residente do Pavillon, Palais de Tokyo, Paris e pesquisador na Jan van Eyck Academie, Holanda. Seu trabalho foi exibido internacionalmente em locais como: Centre Pompidou-Metz (França), Palais de Tokyo (Paris),  S.M.A.K Museum (Bélgica), 12th Istanbul Biennial, CCS Bard College (Nova York),  Barjeel Art Foundation (Sharjah), Beirut Art Center (Líbano) e 3ª Bienal da Bahia, Brasil. Em Março ele estará presente em “Luogo e Segni”, uma importante exposição coletiva a ser realizada no Punta della Dogana - Palazzo Grassi, Veneza, Itália.

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