Glory Hole - Raree Show

Tetine

Glory Hole - Raree Show

Tetine

  • Período
  • 10.02 — 21.03.2015

  • Abertura
  • 10.02 — 18 horas

  • Curadoria
  • Bruno Mendonça
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Inserido debaixo das escadas do prédio da galeria, o projeto Glory Hole apresenta escala e dimensões que fogem do padrão convencional dos espaços arquitetônicos expositivos (2,15 x 1,38 x 0,90 cm). Para a primeira edição, o pesquisador Bruno Mendonça convidou a dupla de artistas brasileiros radicados em Londres – Tetine – formada por Bruno Verner e Eliete Mejorado. Com uma produção multimídia, a dupla apresenta um vocabulário híbrido e transdisciplinar cruzando linguagens e fronteiras entre os universos da música,da performance, da videoarte e do texto. Em Raree-Show 1 a dupla apresentará uma instalação composta por sketches de spoken word e experimentações sonoras que compõem uma narrativa que transita entre os campos da poesia, da literatura, do teatro, do cinema e da novela. As peças sonoras são como capítulos ou atos desta narrativa. O trabalho pode ser pensado de forma expandida como um livro, um filme ou uma peça de teatro. 



texto por Bruno Mendonça.


Na peça sonora “From Now On”, a frase: “A linguagem: passado, presente e futuro” é dita de forma categórica. Essa frase parece condensar em apenas uma sentença o vértice da obra de Tetine, ou seja, a articulação complexa da linguagem. Isso se deve ao background dos dois integrantes - Bruno Verner vem do campo da linguística e da música, tendo um repertório de poesia marginal, literatura maldita e do movimento post punk. Já Eliete Mejorado vem da área da performance, mais especificamente do gênero spoken word. Essa junção fez com que Tetine criasse uma produção pautada no uso do texto, da voz, da música e da performance, materializando e desdobrando essa relação de diversas formas.

 

Desde seus primeiros trabalhos os dois artistas vêm aprofundando essas relações, seja em suas peças sonoras mais sombrias e melancólicas, nas quais a dupla opera uma textualidade mais poética e aproximada da literatura, seja naquelas que flertam com ritmos mais populares como o funk carioca, entre outros ‒ sempre existe uma espécie de performatividade do texto.

 

No artigo “Literatura comparada e estudos de performance:tendências, diálogos e desafios no limiar da transdisciplinaridade”, o pesquisador Maurício de Bragança aprofunda as questões levantadas pelo linguista Paul Zumthor em seu livro Performance, recepção e leitura a respeito dessa noção performática do texto. Segundo o pesquisador, o corpo, por intermédio da voz, instaura um texto de caráter performático que é coberto de implicações semióticas, políticas, etnográficas, cartográficas e mitológicas.

 

Essa colocação me parece fundamental para compreendermos o trabalho dos artistas no que diz respeito à construção de um discurso crítico e político. Em projetos como Alexander´s Grave e Música de Amor, do início da década de 1990, a dupla gravita sobre diversos temas caros à contemporaneidade e à sociedade ocidental por meio de textos extremamente poéticos. Esses projetos da primeira fase do duo apresentam algo que é bastante aproximado ao conceito de “poesia” trabalhado por Paul Zumthor. Para o linguista, a poesia pensada em seu estado expandido e performático é mais do que um conjunto de textos poéticos; poesia para Zumthor é, sobretudo, a ação do corpo, do gesto e dos meios.

 

Quando partem, no início dos anos 2000, para uma pesquisa e experimentação com o pop e o funk carioca, o Tetine passa a acionar outro tipo de poética, a do uso do texto como manifesto.Para Zumthor o texto performatizado enquanto manifesto ganha um status de resistência e polêmica.

 

Desde a primeira fase de produção, a dupla apresenta uma inteligência de que a linguagem operada pela voz é ainda (mesmo depois de séculos) uma manifestação poderosa.

 

Na cultura o uso da voz e da palavra (texto) fez com que diversas esferas da sociedade, como a política e a religião construíssem uma narrativa que transita entre poder e verdade, culto e poesia por meio da pulsão profunda da voz, levando-nos a seguir o percurso da boca ao ouvido no modo imperativo. O texto em sua forma de manifesto trabalha com as mesmas bases, porém de forma disruptiva, combativa, transgressora e desobediente. Tem algo mais próximo a isso do que o funk carioca?

 

O Tetine, dessa forma independente da temperatura, tipologia ou forma de texto com que esteja trabalhando, do mais melancólico ao mais agressivo e/ou festivo, faz com que esse assuma um estado performático, transformando-o em uma espécie de corpo social. O texto ganha, por meio desse estado performático, dimensões coletivas,desdobrando-se do corpo do performer para o corpo do público através de um discurso que ganha corporeidade. Sendo assim, a ideia de performance em seus viés antropológico, como apontada por Zumthor, se coloca como um ato de comunicação e não tão somente como  uma ação poética.

 

Essa potência discursiva e narrativa que o texto adquire com base nesse viés performático é muito forte. No artigo já citado do pesquisador Maurício de Bragança, o mesmo apresenta uma reflexão sobre essa questão discursiva/narrativa aproximando Walter Benjamin a Zumthor que podemos conectar ao trabalho dos artistas.

 

 

Benjamin sugere duas formas de compreensão do evento narrativo, primeiro como uma composição, que se evidencia nos elementos, aspectos e estruturas que formam a narrativa. Tais elementos localizam a narrativa como uma obra, por meio de um texto que é imaginado, moldado, construído. Uma segunda forma de compreensão da narrativa, pautada no gesto performático, estabelece-se exatamente no âmbito da ação, e não somente da composição. Desta maneira, a narrativa se afirma tanto como o local da composição quanto de ação, conservando a ambiguidade que a performance mantém entre poiesis e práxis. Essa performatividade da narrativa e do discurso cria também outra situação interessante, a de uma amplificação ficcional do texto. Afinal, a performance problematiza as relações entre corpo, memória e tempo.

 

O trabalho de Tetine como parte de uma rede de artistas que atuam com base nessa complexidade da linguagem, na voz e na performance, se faz muito importante numa época em que escutar tem um legado significativo (num tempo de pobreza de escuta), seja de uma obra poética, de canções midiatizadas ou da voz ao telefone, como aponta curiosamente a pesquisadoraCida Golin da UFRS em seu artigo “Paul Zumthor e a poética da voz”. Afinal como dizia o próprio Deleuze: “o som nos invade, nos empurra, nos arrasta, nos atravessa...” (Deleuze, 1997, p.166).

 

 

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Bibliografia:

ZUNTHOR, Paul. 2007. Performance,recepção, leitura. ed. rev. e ampl. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2007

DE BRAGANÇA, Maurício. Literatura comparada e estudos de performance: tendências, diálogos e desafios no limiar da transdisciplinaridade. In: Aletria, Brasil, volume 20, Janeiro-Abril. P. 63-75, 2010

GOLIN, Cida. Teorias do rádio: Paul Zumthor e a poética da voz. In: MEDITSCH, Eduardo (Org.). “Teorias do rádio: textos e contextos”. Florianópolis: Insular, 2005. V.1, p. 259-267. (Coleção NPs Intercom, 5).

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