Sem história: Victor Gerhard, 1964-1984

Victor Gerhard

Sem história: Victor Gerhard, 1964-1984

Victor Gerhard

  • Período
  • 07.04 — 12.05.2018

  • Abertura
  • 07.04 — 14 horas

  • Curadoria
  • Patricia Wagner
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Sem história: Victor Gerhard, 1964-1984 apresenta a pesquisa realizada em torno da produção do artista nascido em Santa Cruz do Sul em 1936. Após mudança para o Rio de Janeiro em 1959, onde vive até hoje, inicia seus estudos no ateliê livre do MAM com Ivan Serpa e Domenico Lazzarini, participa de inúmeras exposições nacionais e internacionais, individuais e coletivas, além de quatro Bienais de São Paulo. Pela primeira vez depois de mais de 30 anos de sua última exposição no Rio de Janeiro, a Galeria Jaqueline Martins tem o prazer de promover o reencontro com esse amplo repertório de experimentações, atravessado pela pintura, gravura, colagem, fotografia, vídeo e o uso pioneiro do neon no Brasil. 


A via que norteia a exposição é a ideia de que “sempre, diante da imagem, estamos diante do tempo”. De forma que, para configurar essa panorâmica, assumimos que nela estão contidas tanto a vasta produção multimídia do artista, quanto as marcas de um silêncio insondável que se seguiu dos anos 80 até hoje. Lançando mão de uma equação subjetiva, podemos dizer que as marcas deste esquecimento, somadas ao saldo sempre positivo do que chamamos de “tempo que passa”, resultam na possibilidade de um olhar que se atualiza ao passo que penetra nas imagens criadas por Gerhard. 


Em um ato contínuo, trata-se aqui de um movimento de ampliação do entendimento que temos hoje do que se consolidou como a nossa vanguarda mais radical, pungente, das décadas de 60 e 70, para permitir que outros lampejos possam emergir e dilatar o panorama artístico ao qual nos reconhecemos como filiados. Uma apreensão do passado que visa romper com um gesto muito próprio à civilização capitalista, e mais particular ainda à nossa condição de metrópole subdesenvolvida, e nos deixar a mercê de uma armadilha sistêmica na qual a cultura é devorada como exceção e cuspida como regra. De maneira que, as figurações mais radicais e marginais que um dia conquistaram espaço às custas de sua força rompante, hoje habitam o imaginário que se consolidou sob a forma de um caldo dominante, mimetizado na paisagem apaziguada da história. 


Contra a primazia de uma imagem definitiva, tecemos novas matrizes do campo visual ao retomar a produção de Victor Gerhard. Nomeada nesse conjunto que se apresenta na Galeria Jaqueline Martins de Sem história - inscrição tomada de empréstimo de uma de suas colagens - a exposição busca enfatizar não apenas a condição objetiva a qual a produção de Gerhard esteve limitada em seu absoluto remanso, como sua resistência em se inscrever em um quadro específico de significações, adotando muitas vezes uma estética lateral em relação aos discursos contemporâneos. 


A periferia discursiva e simbólica do trabalho do artista, permitiu uma posição independente em relação à definições programáticas da arte, assumindo uma postura comprometida com o espírito da época ao mesmo tempo impelido por um desejo autêntico de realizar suas próprias descobertas estéticas. Como um observador atento da realidade nua e crua das ruas, utiliza logo em seus primeiros trabalhos a materialidade urbana das notícias de jornal, anunciando o interesse pela perversidade constitutiva da metrópole moderna. Temática que se estende numa configuração pop dos interiores domésticos recriados a partir de recortes de revistas de decoração. Imagens que indicam, por meio de um exercício formal, o grau de artificialismo que a casa, em seu arranjo burguês, assume. Conforme apontou Frederico Moraes em texto de 1975 a propósito da Série Ocupação, “Gerhard apenas concretiza as virtualidades que subjazem semi-ocultas no sub-solo da foto. A cor funciona ao mesmo tempo como comentário e interferência”


No início dos anos 70 Victor Gerhard inicia, de forma pioneira no Brasil, um trabalho com neon. Influenciado pelos trabalhos de Chrissa, Piotr Kowalski e Martial Raysse, os neons de Gerhard traduzem o paradigma de uma nova realidade industrial se consolidando concomitante ao estabelecimento de um mercado de arte em formação no eixo Rio-São Paulo. Seus objetos representaram a inflexão de seu interesse por novas experimentações em formas de contornos sensuais. Como desdobramento desse novo fluxo expressivo, inicia uma de suas últimas grandes séries de trabalhos, e o neon passa a protagonizar imagens fotográficas atravessadas por uma obscenidade refreada e alegórica. As relações entre a forma erotizada e o uso de materiais industriais sugerem relações nocivas no âmago da civilização industrial, relações que olhando retrospectivamente estão sempre presentes em sua breve e intensa trajetória. 

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