Rurais

Adriano Amaral

Rurais

Adriano Amaral

  • Período
  • 11.11 — 20.01.2018

  • Abertura
  • 11.11 / 14hs

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texto por João Laia


Vivemos um período paradoxal no qual a instabilidade se tornou um estado permanente. Avanços tecnológicos, em especial a chamada revolução digital, alteraram por completo a forma como nos relacionamos com o mundo, contaminando progressivamente todas as áreas da nossa vida. Distinções entre campos como trabalho e lazer ou economia e ecologia tornaram-se pouco operacionais. Esta dissolução de fronteiras e definições assinala a interpenetração entre domínios anteriormente vistos como distintos. O nosso ambiente cultural tornou-se o nosso habitat natural, levando-nos a reconhecer o carácter compósito da nossa constituição como seres vivos. Respondendo a este contexto incerto, linhas de pensamento como object oriented onthology ou o conjunto de discursos agrupado sob o título de Antropoceno (e as suas declinações nominativas),exploram a presença de entidades não humanas, recontextualizando a humanidade no interior de uma rede expandida de agências. O momento atual é um palco onde este tipo de tensões se fazem sentir de forma cada vez mais acelerada, sendo traduzido pela ideia genérica de crise, associada primordialmente com o campo económico, mas também sentida de forma clara nas suas vertentes ecológicas,filosóficas, humanitárias e políticas.


Refletindo estas deslocações, a prática de Adriano Amaral investiga as características processuais de um contexto rizomático feito de contrastes em contaminação. A mostra utiliza o espaço da galeria como fio condutor, ocupando os dois andares para construir a sua narrativa. O piso térreo é dominado pelo vídeo que dá nome a todo o corpo de trabalho: Rurais. Exibido simultaneamente em duas TVs planas suspensas pela mesma estrutura, mas direcionados para lados opostos da sala, o vídeo retrata visões noturnas da fazenda dos avós do artista. Produzidas através de um drone, as imagens de barracões, espaços vazios e alfaias agrícolas aparentemente abandonados projetam um cenário pós-apocalíptico, lembrando-nos dos retratos produzidos pelos robots utilizados no acidente nuclear de Fukushima. Conhecido como ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response), o som utilizado no vídeo tem como objetivo provocar sensações físicas no corpo do ouvinte, sendo semelhante a um fenômeno de sinestesia entre audição e tacto. Esta dimensão fantasmática projetada por Rurais é sublinhada pelos trabalhos que, fixos às paredes,circundam as TVs: uma série de caixas de marimbondos e um conjunto escultórico ambíguo. As estruturas de insetos emitem, cada uma a seu modo, sons artificialmente construídos que complementam a banda sonora das imagens e, em conjunto,ambientam o espaço, intensificando a tensão e estranheza desses corpos orgânicos.


A outra série de esculturas, constituída por elementos finos, longos e tubulares forma um circuito que reflete a organização modular das caixas de marimbondos e recria uma agência híbrida entre o orgânico e o artificial, existindo, ainda, como um vestígio de um sistema passado ou um elemento de uma infraestrutura porvir. No andar superior, o piso de cimento encontra-se coberto por uma manta de borracha negra que suaviza o caminhar e, desse modo, sublinha a nossa constituição física. A sala é povoada por cerca de cinquenta elementos de superfície brilhante que contrastam com o piso fosco do espaço .Iluminados por uma luz ultra-violeta, as formas oblíquas revelam-se, na verdade, calçados que sofreram vários processos de manipulação, entre os quais dobra e queima, sendo posteriormente cobertos por camadas de silicone espirulina; um tipo de alga marinha. De maneira semelhante ao circuito do andar de baixo, o aspecto ambíguo das esculturas-calçado situa-nas entre uma relíquia de uma época passada, resíduo de um desastre que alterou por completo a sua aparência e consistência, e, também, como apontamento de um momento que está achegar, preservados como carapaças ou conchas, uma qualquer proteção de novos seres em desenvolvimento num comportamento de contração e expansão. Sublinhando este tipo de sobreposição conceptual que estrutura a exposição, três outras esculturas feitas a partir de máquinas agrárias obsoletas e contendo enormes tanques anexados a seu corpo, emitem uma constante nuvem de vapor de água que paira sobre os reservatórios. Dos seus corpos prolongam-se tubos que percorrem o chão e desenham o espaço.


A ação concreta e etérea do conjunto de pulverizadores ecoa a nuvem de informação que nos rodeia, indicando a sua ubiquidade e existência como biotipo em permanente reconfiguração, ambas características centrais dos sistemas de inteligência artificial que regulam o nosso dia-a-dia.A conjunção de elementos neste andar constrói a imagem de uma fábrica disfuncional, trazendo à memória uma série de referências que se sobrepõem e onde cabem imagens pertencentes a uma linha de montagem industrial ou a uma estufa de produção vegetal. A presença necessária de humanos para a ativação das esculturas-calçado e das máquinas agrárias, sublinha a sua ausência presente. Desta forma, estes dois conjuntos escultóricos revelam-se indexes da passagem atual de uma tipologia de trabalho assente na força motoro-mecânica para uma modalidade centrada na imaterialidade das atividades intelectuais que define a época digital. O piso de borracha regressa como uma assombração, relembrando-nos da nossa condição corpórea constantemente apagada pelo regime operacional e representacional originário de Silicon Valley. Para além de expandir a ausência de seres humanos, esta relação dissonante entre corpóreo e imaterial que a exposição coreografa incorpora o visitante no interior do seu campo físico e simbólico, destruindo a distinção entre o representado e o vivido.


Rurais apresenta uma fragilidade que assinala as formas divergentes e em evolução que marcam a condição contemporânea. Inúmeras marcas indicam o interesse de Amaral num presente de latência e discordância, criando uma rede de associações que se acumulam em vários objetos, reaparecendo em diferentes momentos: o vídeo apresenta um movimento de câmara simultaneamente maquinal e fluido; as caixas de marimbondos friccionam a tensão entre presença e ausência; o som confronta o corpóreo com o imaterial; a esculturas tubulares apresentam-se como fragmentos biotecnológicos de um tempo desconhecido; as esculturas-calçado conjugam materiais orgânicos e industriais; o suporte no chão faz referência a ideias como opacidade e transparência; e os pulverizadores, através da utilização de água, indicam um estado em transição, situado algures entre o sólido, o liquido e o gasoso. Em geral, são utilizados objetos facilmente reconhecíveis mesmo que por vezes não pertençam ao nosso quotidiano. Este gesto, relaciona-se com o interesse deAmaral nas relações materiais desses elementos com o mundo ao redor. O objeto (artístico) no contexto do seu trabalho torna-se um componente de uma macroestrutura onde inúmeras dinâmicas sociais podem ser analisadas. Em ambos os andares da exposição projeta-se um cenário distópico e místico, repleto de fantasmas,relíquias e com traços de atividade humana onde especula-se uma fase posterior,quando uma nova ordem floresce liberta da ação do ser humano. Entre outros exemplos e com características distintas, os movimentos robóticos dos pulverizadores e os sons das caixas de marimbondos encontram-se como gestos concretos e heterogéneos de agências não-humanas em plena atividade.


No seu conjunto, a exposição produz um ambiente inquietante que articula a voragem que define o momento histórico atual. Ao refletir o carácter intangível das condições de vida contemporâneas, a aparente abstração do trabalho revela-se uma investigação atenta sobre o real. A sua relação intrínseca com o espaço da exposição, constituindo-se quase como um gesto site-specific, é um sinal desse interesse, traduzido numa exploração generalizada de formas, materiais, símbolos e temporalidades no interior da especificidade de um aqui e agora. De maneira semelhante, atemporalidade incerta que os trabalhos habitam e projetam assemelha-se à coexistência de diferentes enquadramentos temporais no presente e, assim,constitui-se como mais um mecanismo que situa a sua prática no interior de uma análise social. O caráter pós-humano da narrativa de Ruraisnão constitui uma forma de afastamento da sociedade mas, antes, uma formulação de um outro entendimento do nosso ambiente como uma plataforma em rede onde somos um dos muitos elementos existentes,interagindo com uma série de outras agências. Deste ponto de vista, o trabalho de Adriano Amaral pode ser interpretado como uma forma de alquimia sociológica,iluminando as ansiedades do presente e interrogando as suas condições concretas para articular e materializar sistemas sociais abstratos.

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