Nomadic Architecture

David Lamelas

Nomadic Architecture

David Lamelas

  • Período
  • 08.11 — 10.01.2020

  • Abertura
  • 08.11 — 17hrs

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Seria fácil classificar David Lamelas como um artista conceitual. Flexível e nômade, seu trabalho é avesso a grandes teatralidades. Lamelas tem o mérito de jamais ter abordado sua origem “nacional”, e de crer que o conceito de identidade tem muitas camadas de conteúdo – uma crença cada vez mais sob pressão nos dias de hoje.


Sua produção artística situa-se na intersecção dos vetores de espaço e tempo. Consequentemente, sua obra é coreográfica; ela não pode ser fixada – os trabalhos de David Lamelas se posicionam no mundo de forma concreta, e as inevitáveis mudanças em sua percepção e interpretação são afetadas pelo modo como o mundo gira. Uma parede ou um canto são os mesmos hoje e/ou amanhã, porém a veracidade do tempo vivido torna-se a norma “efêmera” que confere significado ao abstrato, que por sua vez se mede em relação ao ambiente e se relaciona com ele, bem como com o eventual comprometimento do espectador com a história e o modo como é feita a arte ao longo do tempo. A arte de David Lamelas caminha aos trancos e barrancos, ao longo e através do tempo, e torna-se tempo graças a nossa capacidade de lembrar, que é, a priori, tanto subjetiva quanto seletiva. É notável como o trabalho de David Lamelas está “à frente” de seu tempo, e como ele simultaneamente observa e manipula o lugar – tempo é atividade –, já que o título de uma de suas obras condensa a ideia de que o tempo é sempre o “agora”, e portanto só pode se manifestar em memórias e num local específico, seja ele qual for. 


Folded Walls está intimamente aninhada na reflexão comum sobre arte; produzida pela primeira vez em 1994, trata-se à primeira vista de uma obra extremamente simples, que ao mesmo tempo apresenta-se (frente à história da arte mais recente) como complexa.Em 1994, David Lamelas, que então morava e trabalhava em Nova York, foi convidado a expor em Buenos Aires, a metrópole de seu país de origem. Após solicitar e receber as dimensões das paredes do espaço expositivo, Lamelas escolheu uma parede de 4,3 x 4,6 metros e, em seu ateliê, cuidadosamente e muito meticulosamente dobrou uma grande folha de papel em branco com as mesmas dimensões e a colocou dentro de uma mala, para que pudesse levá-la como bagagem e/ou despachá-la para Buenos Aires. 


Folded Walls é uma obra que funciona como autoinstrução; ao mesmo tempo, torna problemático o conceito de “in situ”, pois é concebida a partir da factualidade arquitetônica do local expositivo, sem que esteja fixa no espaço/junto à parede. Folded Walls está acomodada numa caixa de papelão e, quando colocada num espaço, como por exemplo a galeria Jan Mot em Bruxelas, torna-se como que um desdobramento do espaço físico. A caixa de transporte passa a ser uma redução, uma maquete arquitetônica. Esta parede de tensão/parede dobrada de papel branco e a caixa no chão como embalagem/arquitetura ‘em escala’ propõem um discurso acerca do lugar do artista, do lugar da arte e do lugar do ateliê do artista enquanto escritório, e não oficina. 


Folded Walls é uma obra nômade que pode ser realizada num local diferente por meio de uma simples questão curatorial. É uma obra minimalista na qual o cubo branco, enquanto espaço branco neutro ideal para a exibição da arte em si, é desvelado pelo frágil papel dobrado, num aceno crítico destinado a guiar a experiência, aliada ao mínimo de conhecimento, de volta ao centro do local expositivo, por meio de uma arte que é concreta e totalmente desprovida de ilusão.

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Luk Lambrecht - Diretor Artístico do Museumcultuur Strombeek, Gent, Bélgica.

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