1:1 | Reprodução Assistida

João Loureiro

1:1 | Reprodução Assistida

João Loureiro

  • Período
  • 12.05 — 14.07.2018

  • Abertura
  • 12.05 — 14 horas

  • Curadoria
  • Bruno de Almeida
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O projeto 1:1 explora a relação entre a galeria e o seu contexto urbano através da conexão entre o espaço expositivo e outros locais existentes nas suas imediações. Em cada uma das edições do projeto um artista é convidado a conceber um trabalho bipartido, que ocupe uma sala de exposição na galeria e, simultaneamente, um segundo espaço localizado no bairro. Este outro local, com seus próprios usos e funções, é escolhido pelo artista e situado a uma distância caminhável da galeria. Deste modo, para a compreensão da totalidade da obra é necessário o deslocamento do visitante da sala expositiva até um determinado local no bairro ou vice-versa. 


Para a primeira edição do projeto, o artista João Loureiro correlaciona o espaço de exposição da galeria com um açougue do supermercado Futurama. No açougue, o artista expõe esculturas de carne moída, reproduções em escala reduzida da obra “Figura Reclinada em Duas Peças: Pontos” (1969-1970) de Henry Moore (1898-1986). Uma vez por semana, o artista se desloca até ao açougue e recolhe as moscas mortas da armadilha luminosa para insetos ali instalada. As carcaças das moscas são levadas para o espaço de exposição na galeria e ali são espetadas, com alfinetes entomológicos, numa escultura de isopor, reprodução à escala real da obra “Formas Únicas de Continuidade no Espaço” (1913) do artista italiano Umberto Boccioni (1882-1916). Ao longo da exposição os mesmos processos são repetidos e a escultura de isopor vai acumulando cada vez mais moscas mortas. 


“Formas Únicas de Continuidade no Espaço” não é apenas o ponto alto da trajetória artística de Boccioni mas também um dos principais símbolos do Futurismo, movimento proto-fascista originado na Itália no início do século XX, e dotado de uma ideologia estética e política que vangloriava o progresso moderno, rompendo ferozmente com qualquer tipo de “passadismo”. Ao almejar uma renovação total da vida humana o Futurismo alargou a sua esfera de atuação para vários campos tais como a culinária. As esculturas de carne são um dos pratos defendidos pelo Manifesto de Cozinha Futurista. Ao transcender a função dietética da comida o movimento não só pretendia explorá-la como um meio artístico, mas também como instrumento de difusão de ideais nacionalistas e fascistas, que almejavam uma transformação simultânea do corpo e da mente da população. 


O Homem em marcha representado na obra “Formas Únicas de Continuidade no Espaço” sintetiza esse corpo em mutação, que é o paradigma do Futurismo. O gesso da matriz original da escultura encontra-se no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), e a partir dele foram realizadas as conhecidas versões em bronze; a quarta e última, feita para a TATE Gallery e trocada com o MAC USP pela escultura “Figura Reclinada em Duas Peças: Pontos” de Henry Moore. Ambas as peças sintetizam as trajetórias artística de seus autores, e as suas imagens ficaram imortalizadas num inconsciente coletivo que transcende a História da Arte. As moscas, que no trabalho de João Loureiro são os agentes conectores dos dois espaços, não têm aparências individuais distinguíveis, uma representa todas e todas possuem uma insignificância que lhes garante, por séculos, o mesmo desdém em qualquer lugar. 

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