Colagens

Hudinilson Jr. e Nino Cais

Colagens

Hudinilson Jr. e Nino Cais

  • Período
  • 04.02 — 10.03.2012

  • Abertura
  • 04.02 — 18 horas

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Muita água rolou sob a ponte das artes plásticas desde que Picasso, em 1912, realizou sua primeira colagem. O gesto, sujeito a inúmeras interpretações, foi visto como uma afronta à grande tradição da Pintura, pois trazia para dentro da tela- lugar até então organizado de acordo com as leis da representação - as coisas mais ordinárias do mundo: um bilhete de teatro, um pedaço do jornal do dia. E esses fragmentos apareciam assim, de chofre, sem nenhuma ambientação, causando,como se pode imaginar, muita consternação.


Hoje, exatamente um século depois, as colagens quase se institucionalizaram, tornando-se um tipo de produção muito bem recebida nas instituições e galerias de arte. A exposição “Hudinilson Jr. e Nino Cais: Colagens” no entanto, conserva algo dessa primeira aparição da colagem, ainda no tempo das vanguardas. São imagens perturbadoras. Quer seja pelo caráter francamente erótico que emana das colagens de Hudinilson, quer seja pela violência contida nos procedimentos de lixar, cortar e cobrir os rostos dos retratos nos trabalhos de Nino Cais, as obras agora expostas na Galeria Jaqueline Martins são bem pouco comportadas. O clima geral da mostra é vagamente soturno. Os dois artistas trabalham a partir de imagens antigas, criando um ambiente de forte carga psicológica que lembra um porão onde se guardam lembranças antigas.

 


Hudinilson Jr.

 

Nas Pranchas repletas de colagens dos dois lados de Hudinilson Jr., percebe-se a recorrência de um mesmo tema, onipresente: o corpo masculino como objeto de desejo. “Eu só me interesso por homens”, repete o artista, à exaustão. Mais do que a afirmação de sua homossexualidade, a frase revela o motor de sua produção. “Enquanto não estou trepando, estou fazendo essas colagens”, ele afirma, estabelecendo claramente o vínculo de suas pranchas com o ato sexual.

Desde a década de 1980, quando o artista produziu seu famoso trabalho “Xerox Action”, exposto no MAC em agosto de 1983, composto por imagens em xerox de partes de seu corpo, que era pressionado diretamente contra a máquina, sem censura, o corpo masculino já aparecia como um grande tema de sua obra e o ato sexual (nesse caso um ato entre o homem e a máquina de Xerox) era o modo a partir do qual o trabalho era executado.


Ao escolher as imagens para as Pranchas de colagens – advindas de diversas procedências como jornais, revistas, panfletos publicitários, anúncios de ofertas de supermercados, santinhos de igrejas, entre outros – o critério do artista parece ser apenas um: o prazer erótico que elas são capazes de lhe proporcionar. Corpos de homens nus ou semi nus são as mais freqüentes. Entre modelos fotográficos, atletas, atores cinema e TV e atores de filmes pornográficos encontram-se imagens menos óbvias de esculturas antigas (gregas,romanas, renascentistas) e imagens de santos católicos. Também figuram, aqui ou ali, animais, paisagens e construções arquitetônicas, como uma torre alta que imediatamente é lida como símbolo fálico.


Curioso observar como imagens de trabalhos de artistas amigos de Hudinilson também têm espaço nas Pranchas: obras de Regina Silveira, Alex Vallauri por exemplo, bem como bilhetes pessoais, anotações entre outros conteúdos que poderíamos entender como mais afetivos do que propriamente eróticos.

Foi o artista plástico, professor universitário, pesquisador e colega de Hudinilson desde a formação do grupo 3 nós 3, Mario Ramiro, que mais detidamente se debruçou sobre esse rico material (formado pelas Pranchas, presentes na exposição, e também pelos “cadernos de referência”) e pôde retirar deles maiores conseqüências. Ramiro aponta a importância do caráter sistemático da produção de Hudinilson, que revelaria sua “mentalidade organizadora, catalogadora e colecionista”. 


De fato, Hudinilson parece estar sempre às voltas com a organização de suas memórias,das imagens que povoam seu cotidiano e seu imaginário. Tais trabalhos podem ser vistos como uma espécie de diário íntimo onde vida pessoal e proposta estéticas urgem indissociadas. Hudinilson recusa-se a falar dos trabalhos sem longas digressões pessoais, sem contextualizá-los com as histórias familiares, amorosas e mesmo fatos políticos. Tudo se passa como se não houvesse separação entre as experiências vividas e as colagens. Cria-se, desse modo, uma simbiose em que não há distanciamento entre as duas esferas: a pessoal e a artística, ao menos do ponto de vista do artista.


Nas Caixas, também compreendidas como colagens, embora tridimensionais, a lógica da seleção, do recorte e da composição (entendida como aproximação de elementos para construir uma narrativa) também está presente. Porém, nesse caso, entram em cena texturas diferentes, volumes, peso e uma certa noção de equilíbrio.Essas forças entram em cena, mais uma vez, sob o signo da sensualidade e do erotismo. São construções que exigem do público uma contemplação lasciva em que o ato de ver é quase um tocar, como se pudéssemos sentir os materiais e o contato deles com nosso corpo, só de olhar. Também são construções fortemente impregnadas por um universo simbólico surrealista: seios, ferro, pedras, reafirmando sua direção aos conteúdos ainda não processados racionalmente do inconsciente.

 

 

Nino Cais

 

O artistaNino Cais apresenta duas séries de colagens, além de duas esculturas pontuais.A primeira das séries, com obras de 2009, é construída, basicamente, a partir de um repertório de revistas de moda publicadas na década de 1970. São revistas que ensinam a fazer roupas e retratam o universo doméstico, a família tradicional tal como era idealizada à época.


Os modelos, majoritariamente mulheres no papel de mães e donas de casa e crianças,aparecem sempre com o rosto recoberto. Esse índice de despersonalização: não detrata desta ou daquela mulher, mas de um tipo social encampado pela publicação,cumpre uma dupla função. Ao mesmo tempo em que revela uma ideologia amplamente difundida sobre o comportamento feminino e sobre as relações no interior da família, acaba por revelar o quanto ela é opressora, à medida em que impede que se veja a singularidade de cada personagem. A propalada “vida rica, leve e feliz” é transformada, com um gesto bastante simples do artista. Embora a beleza das imagens seja inegável: suas cores fortes, os contrastes, a nitidez das texturas há algo de francamente postiço nessas fotografias de estúdio. A colagem, que muitas vezes aproveita outras imagens da mesma revista, como cabelos de uma mulher para recobrir o rosto de outra, chama a atenção para o procedimento da montagem fotográfica hoje já internalizado nas redações com programas como photoshop e todas as outras possibilidades abertas na era da imagem digital.


A segunda série de colagens, mais recente, tem como matéria-prima principal revistas do teatro francês do início do século XX. As atrizes e atores aparecem vestindo figurinos típicos, em cenários neutros: uma paisagem, cortinas de teatro, cadeiras de época. Algumas vezes, flagra-se a encenação propriamente, com personagens executando uma ação, outras vezes os modelos estão posado para fotos. Como na série anterior de colagens, aqui também a intervenção do artista concentra-se no rosto dos retratados. Nino Cais faz cortes na superfície das imagens de modo que, com pequenas estruturas coloridas de suporte, elas se tornem uma espécie de máscara tridimensional. Suas feições são alteradas, tornam-se protuberantes, disfarces aparentes, uma espécie de rosto disforme e um pouco assustador.


O Universo do teatro, diretamente evocado nessa série, explicita ainda com maior clareza certas noções centrais para as colagens de Nino como as de representação (como uma atuação programada, em contraste com a espontaneidade)a de personagem (como construção deliberada de um tipo, diferente dos sujeitos particulares), a de máscaras (como roupagens sociais), de as tramas – farsas, comédias ou tragédias (como enredos previamente elaborados, a serem executados de acordo com um roteiro). Como pano de fundo há uma forte desnaturalização das imagens.


A beleza inegável que emana dessas imagens, mesmo dos personagens grotescos ou das cenas engraçadas, excessivamente ensaiadas, que eles representam, é mantida mesmo depois das intervenções de Nino. Tais intervenções apenas ressaltam seu caráter de encenação. Atravessam, literalmente, a superfície construída que então se abre para o público em nova dimensão, como se a coxia entrasse para dentro do palco.


O ato,não sem certa violência, rompe o andamento geral do espetáculo. Tal como o próprio artista afirma, ao lembrar as telas cortadas de Lucio Fontana, trata-seda emergência de uma nova camada, que eclode nas cenas de forma imprevista, eas ressignifica.


Nas imagens lixadas esta eclosão se dá às avessas. A superfície da imagem não é atravessada, mas os rostos são desgastados até que nenhuma forma identificável possa ser reconhecida. O desgaste da superfície forma um lugar vago, já ocupado por muitos, mas que não pertence a ninguém. Forma-se uma névoa indefinida nos limites daquilo que sabemos ser um rosto.


Essas colagens de Nino Cais recolocam, na atualidade, o tema clássico da vida como teatro. E o fazem a partir de um repertório bastante específico: as imagens veiculadas em revistas. Revistas que circularam outrora e hoje funcionam como documentos a serem reconsiderados, inclusive em seu caráter documental no que diz respeito a serem um retrato fiel de uma realidade, pelo olhar contemporâneo.

 

Em comum,a produção desses dois artistas, de gerações e inclinações diferentes, têm um interesse pelas imagens banais, descartáveis que se tornam velhas no instante seguinte à sua publicação. Eles dão a elas uma vida nova, mais problemática e tensa, revelando, cada um a seu modo, vocações escondidas, conteúdos latentes e recobertos à primeira vista.

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