DramaFobia

Ana Mazzei

DramaFobia

Ana Mazzei

  • Período
  • 23.09 — 28.10.2017

  • Abertura
  • 23.09 / 14h

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HETEROTOPIADO MEDO


por Roberto Alvim

 

[NOTA:

como Virgílio guiou Dante em sua jornada

desenho aqui esta cartografia-cênica

que deve ser lida sobretudo como um convite

para que trilhemos as veredas do lugar-outro

construído por Ana Mazzei]



PRÓLOGO

 

era uma vez um menino

e aquele menino guardava um desejo profundo em seu coração:

desejava não apenas viver

mas encontrar seu destino.

 

seu destino, ele sentia

estava escondido atrás de uma porta –

imensa, gigantesca porta.

o menino então foi ao encontro da porta:

saiu de sua casa

abandonou a segurança de seu lar

e caminhou rumo àquela porta sonhada

atrás da qual seu destino esperava por ele.

 

depois de muito procurar

encontrou a porta gigantesca

mas havia um guarda à frente...

 

como o guarda permaneceu em silêncio

o menino decidiu se calar também

e esperar que a porta se abrisse

ou que o guarda o convidasse a entrar.

assim, o menino sentou-se em uma pedra

e esperou ali

em silêncio.

 

horas se passaram

e as horas se tornaram dias

e os dias se tornaram meses, anos

décadas...

 

o menino

(agora um velho)

permaneceu sentado em silêncio diante da porta gigantesca

por todo o tempo de sua vida.

 

um dia, aquele velho

que outrora fora um menino em busca de seu destino

sentiu que as forças lhe faltavam

e que a morte estava muito, muito próxima;

reunindo um último fôlego

o velho criou coragem e dirigiu-se ao guarda

pela primeira vez em todo o seu tempo de espera:

 

“senhor?

perdão por incomodá-lo, mas...

a porta, esta porta:

quando vai abrir?”

 

o guarda olhou para o velho, sem entender a pergunta

mas o velho insistiu:

 

“por favor, preciso de uma resposta...

espero aqui há tanto tempo....

esta porta, atrás da qual meu destino me espera;

quando estará aberta?"

 

o guarda, então, sorriu

e falou com uma voz carregada de ternura:

 

“esta porta?

está aberta...

esta porta?

sempre esteve aberta, sempre aberta:

pra você.”

 

mas antes que pudesse terminar de dizer estas palavras

o guarda percebeu que o velho

já não respirava mais.

 

 

 I ATO


o palco – lugar da AÇÃO (DRAMA em grego)

habitado por

OBJETOS-DESEJANTES:

nos exigindo

suplicando

implorando

por ACOPLAMENTOS NÃO-NORMATIZADOS.

 

só assim estes das ding serão ATIVADOS:

dependem de nós para descobrirem seu sentido

- mas seu sentido é semelhante ao de máquinas-esquizofrênicas

que FUNCIONAM

ainda que não sirvam para nada...

 

(e é assim que se irmanam à própria estrutura da VIDA)

 

como um CAVALO DE PAU:

galopá-lo

e ir ao encontro

do destino

 

como o OLHO DE DEUS:

perceba – a onisciência

é sempre

instável

 

 

INTERMEZZO


aqui

(nesta interzona):

o lugar da FALA

 

falar para:

 

1 - encobrir nossa nudez

2 - mascarar nosso isolamento

3 - eclipsar a devastação que nos consome

4 - inventar a nós mesmos

 

 

EU FALO : EU EXISTO

 

(se

e somente se

no ato da fala

você perceber o FURO

então penetre por ele

e siga para a próxima cena)

 

 

 II ATO


no cenário

duas sombras

(posto que este é seu território)

conversam em silêncio:

 

SOMBRA 1.

o medo

você compreende?

o medo

não tem

objeto

 

SOMBRA 2.

o medo? não

está errado tão tão errado

o medo tem sim o medo sempre teve sempre terá seu próprioespecífico objeto

 

SOMBRA 1.

o medo?

 

(a Sombra 2 sorri)

 

SOMBRA 2.

sim: o medo só pode existir

se o-Objeto

existe

 

(então a Sombra 2

invoca

o-Objeto)

 

 em um Portal:

Kthulu

(o-Objeto-ausente)

em outro Portal:

sua vítima

(eu-você?)

 

 

EPÍLOGO

 

aqui

agora

em seu espaço mental

(na escuridão de si mesmo)

 

o PRÓLOGO é a morte-em-vida

 

o I ATO é a chance de mergulhar

 

no INTERMEZZO:

hora de aprender a nadar

 

 

e no


II ATO


você

se

afoga

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