Del disegno e della vertigine

Riccardo Baruzzi

Del disegno e della vertigine

Riccardo Baruzzi

  • Período
  • 05.08 — 09.09.2017

  • Abertura
  • 05.08 / 14h

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texto por Caio Meirelles Aguiar


Em outubro de 1974, o escritor francês Georges Perec visitou uma praça de Paris, onde dedicou-se, no período de três dias, a registrar um diário dos eventos testemunhados por ele: toda pessoa, movimentação, automóvel ou mudança climática ocorrida no perímetro da praça foi objetivamente descrita, assim como o horário do ocorrido. O livro resultante, Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense, tornou-se célebre como exemplo de exercício literário em que a ferramenta de esgotamento, ou exaustão, traduzida no obsessivo listar de todos os objetos ou ações vistas, serve de estratégia para extrair significado de elementos aparentemente banais através da sua narração, da pura descrição de sua existência. 


O jogo com convenções presente na obra do autor francês, assim como a tentativa de subverter o que seria esperado da relação de um trabalho com sua própria linguagem, está também no centro da pesquisa realizada pelo artista italiano Riccardo Baruzzi. No entanto, a ideia de jogo, essencial para se aproximar do trabalho do artista, não deve ser compreendida aqui como mera diversão ou passatempo, mas sim como um gesto de liberdade que se distingue do mundano do dia-a-dia. Livre, onde é impossível impor normas sem a perda dessa qualidade, também incerto, pois os resultados não podem ser previstos ou predeterminados. Del disegno e della vertigine apresenta exercícios em que o artista busca jogar tanto com as possibilidades de representação do desenho, entre imagens figurativas e síntese abstrata, quanto com procedimentos que muitas vezes limitam as possibilidades de atuação dentro de uma ou outra linguagem. A linha, e sua responsabilidade como veículo que carrega o gesto, é o principal elemento condutor da ambivalência buscada pelo artista. É chamando atenção para cada uma delas, assim como Perec o fez nas descrições de sua praça em Paris, que Baruzzi busca questionar sua função e propriedades. Dentro de suas pinturas e desenhos, parece difícil ter certeza de suas intenções: onde a linha atua apenas como elemento formal dentro do trabalho, e onde ela esconde preocupações que se expandem para fora da tela. Trabalhos como a série Porta Pittura estão mais ligados à segunda opção: o espectador se depara com um conjunto composto por uma pintura instalada na parede e uma mesa-suporte, sobre a qual outras pinturas estão aparentemente disponíveis para substituir a primeira. Ao mesmo tempo em que o trabalho exerce uma presença escultórica no espaço, a ideia de reposição, ou produção em série, sugeridas por esse arranjo pode causar no espectador questionamentos ligados a noção de autoria e expressão individual tão atreladas à historia da pintura. Aqui, a pintura deixa de ser mero suporte de exploração técnica e passa a atuar como dispositivo de representação e narrativa. 


Para além da pintura e do desenho, Riccardo Baruzzi se utiliza também de instalações e performances sonoras como meio para investigar as variações semânticas que um objeto pode assumir ao ser inserido dentro de um contexto plástico junto a outros. Nesses trabalhos, a linha traçada pelo movimento de um prato de percussão que gira e soa pelo espaço expositivo pode operar na mesma frequência que as linhas presentes nas pinturas, conduzindo assim um estudo das possíveis afinidades a serem arranjadas entre desenho e composição sonora quando ambos, mesmo que pertencentes a diferentes linguagens, atuam/jogam juntos. Em Vertigine, ação/intervenção em que convergem aspectos importantes da pesquisa de Baruzzi, o artista faz referência a procedimentos frequentemente utilizados em performances conceituais. Se a ideia de roteiro e instrução, onde primeiro desenhava-se um plano para depois realizar a ação, era frequente em muitas das performances dos anos 60/70, Baruzzi propõe inverter esse processo: a ação vem primeiro, livre e sem roteiros, deixando o registro para um segundo momento. Este toma a forma de uma lista de gestos (v, e, r, t …) que não apenas documenta o desenvolvimento da intervenção realizada pelo artista no espaço expositivo, mas também chama atenção para o papel que cada parte exerce na construção do todo. Ao invés de encarar o documento como simples comprovação da ação realizada, o artista utiliza-o como um diário em que registra a construção realizada dentro de certo intervalo de tempo. O público, ao ler posteriormente esse diário, encontra uma lista descritiva de gestos e frases que tentam narrar verbalmente movimentos, linhas e cores. Ao ser traduzida em texto, a ação/intervenção torna-se muitas, sempre ocorrendo de maneira diferente na mente de quem a re-imagina. 

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