Corte - Contaminação - Contato

Ricardo Basbaum

Corte - Contaminação - Contato

Ricardo Basbaum

  • Período
  • 06.06 — 22.07.2017

  • Abertura
  • 06.06 / 14h

  • Curadoria
  • Marta Mestre
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Se mostrar a produção extensa e em parte inédita, realizada entre 1981 e 1996, por Ricardo Basbaum é o primeiro objetivo desta exposição, o segundo é ampliar questões levantadas em seu texto Pintura dos anos 80: algumas observações críticas1 , onde o artista faz uma análise das dinâmicas das artes visuais da década. Duas “balizas” que definem não só importantes eixos para a construção contemporânea da arte brasileira - a qual ganha estrutura nos ainda pouco historicizados anos 80 -, como também demarcam o ritmo de trabalho de Basbaum: plástico e discursivo a um só tempo.


Respeitando esse ritmo (essa respiração), a proposta desta exposição é observar um segmento especifico do trabalho do artista, para daí “extrair” contra-discursos necessários à revisão das narrativas da época. 

Um dos consensos estabelecidos nos anos 80 no Brasil, e face ao qual o texto e o trabalho de Basbaum são uma via crítica de fôlego, é a correspondência entre três denominadores: “transição para a democracia”, “neoliberalismo” e “retorno à pintura”. 


A narrativa que lhe dá estrutura é mais ou menos a seguinte: com o fim da ditadura no Brasil varreram-se as tendências políticas e engajadas da arte dos anos 60 e 70; a redemocratização costurou as bases da abertura aos mercados, dos anos 80 em diante; promoveu-se a “volta à pintura” no meio artístico, sustentada por uma geração jovem e eufórica, e pelos novos estilos da “transvanguarda” e do “neoexpressionismo” que o sistema internacional da arte difundia na época. Assim se criavam as condições para a arte brasileira sair da condição periférica que lhe parecia prescrita e convergir, enfim, no “projeto” cultural e econômico do mundo global. 


1984 é uma data que dá conta da correspondência desses três denominadores, tanto no plano dos acontecimentos quanto ao nível do imaginário coletivo. Ano da consolidação do movimento “Diretas Já” - em que pela primeira vez a população brasileira pede eleições após o fim da ditadura - e ano de “Como vai você, Geração de 80?” - exposição no Parque Lage (Rio de Janeiro) com a participação de vários dos artistas que ainda hoje atuam de forma consolidada no meio artístico brasileiro e internacional -, a fortuna crítica de 84 firma a ideia de que toda uma nova geração “livre”, criando uma arte que “investe no presente”, “no prazer”, e “na emoção”emergiu de uma ampla vontade política de renovação das estruturas de poder. Certamente, a ideia de juventude foi a forma mais visível (e também mais ambígua)de uma reação àquela que alguns consideraram uma “arte hermética, purista e excessivamente intelectual predominante nos anos 70”. Mas aquilo que poderia vir a ser um momento “afirmativo”, crítica e institucionalmente, acaba por ser preenchido por slogans e lugares comuns sobre a identidade da arte brasileira, as “moedas de troca” locais para um mercado global de arte em ascensão. 

Mergulhar na produção e nos arquivos de época de um artista e pensador tão relevante quanto Ricardo Basbaum é, de certa maneira, ter a oportunidade de pôr em crise a narrativa que acabamos de expor. Fazê-la não através do nosso próprio texto, mas a partir dessa produção e desses arquivos, abertos e revistos no presente. 


Neste sentido, não deixa de ser sintomático e até mesmo “inusitado” (não fosse ele o pintor mais pintor dos 80), o depoimento de Jorge Guinle Filho no filme “Egoclip” (1985) da Dupla Especializada, coletivo de Ricardo Basbaum e Alexandre Dacosta dedicado à intervenção nos meios de comunicação em massa. Contrariando a ideia da pintura como prática predominante, Guinle Filho vê as práticas colaborativas da Dupla “muito próximas à arte dos anos 70 (...), uma arte conceitual lúdica que envolve vários participantes e que exige do espectador uma integração com o trabalho”. 


Exemplos como este, extraídos da releitura de arquivos, permitem-nos reequilibrar e até mesmo contradizer alguns dos consensos culturais de uma época fervilhante e diversa, como foram os 80, tanto no Brasil como noutras partes do mundo. Permitem-nos também entrever as contra-narrativas, experimentais e “desobedientes”, face aos valores expressivos da “geração de 80”, produzidas por artistas que, como Basbaum, ficaram de fora do cânone da pintura. E entender que precisamente por via destas se garantiu a continuidade das experiências revolucionárias e marginais dos anos 60 e 70 que, tendo sido encobertas durante os anos 80 e 90, todavia não se encerrarame voltam hoje, no contexto da crise do neoliberalismo e da retomada de poderes conservadores. 


Mais do que explicada, a estrutura desta “contra-narrativa” exigia, portanto, ser deduzida a partir de traços intrínsecos ao trabalho de Basbaum, em um movimento que simultaneamente permitisse percorrer a construção individual deste artista, e dele fizesse derivar uma constelação alternativa de referências9. 

Procurando “desestagnar” o cânone da pintura à luz de uma produção que esse mesmo cânone inviabilizou, esta exposição organiza-se, ao redor dos seus três projetos mais consolidados da década de 80 - “Olho” (1984-1990), “Corte de Cabelo” (1985/86), e “NBP - Novas Bases para a Personalidade” (iniciado em1989/90) –, aqueles que irão permitir a Ricardo Basbaum construir um programa em aberto, em torno de práticas comunicacionais e de participação, que combinam protocolos de trabalho e de agenciamento de discursos sobre a arte contemporânea. 


Sem qualquer objetivo de linearidade, esta exposição procura ressaltar a ideia de “arquivo” e de “série”, procedimento que Basbaum vai usar desde o início do seu trabalho como forma de criar sequências que são ao mesmo tempo visuais e discursivas, muitas vezes propensas à “contaminação” ou mesmo à “viralização” – conceito forjado na cultura mediática daqueles anos, imediatamente anterior à revolução digital que viria a seguir. Afasta-se, desta forma, da ideia de “documento”, própria dos conceitualismos da década de setenta e estabelece uma nova ideia de arquivo aberto com uma singular disposição para a negociação e o uso coletivo, aspeto que tem sido um dos denominadores mais idiossincráticos da sua produção. 


Os materiais aqui presentes – desenhos, textos, anotações, pinturas, fotografias, peças gráficas, vídeos e objetos – trazem-nos os anos iniciais dessa construção, e um outro “tom” sobre aquilo que foram os anos 80 no Brasil. Porventura menos “hedonista” ou “solar” como habitualmente se reconhece a cultura daqueles anos, mas profundamente propositivo sobre a ação do artista e a dimensão comunicacional da arte e dos seus discursos. Também decididamente crítico sobre a relação estreita entre economia e produção de subjetividade, nos primeiros anos da democracia no Brasil. Como refere Ricardo Basbaum, “era preciso construir algum tipo de contato direto com o espectador, encontrar outros modos de distribuição das formas artísticas em um mundo que se globalizava. Percebíamos a urgência da produção de novos públicos...”. 

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