Contra o vazio

Dudu Santos

Contra o vazio

Dudu Santos

  • Período
  • 26.05 — 14.07.2018

  • Abertura
  • 26.05 — 14 hrs

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texto por Rafael Vogt Maia Rosa 



Minha primeira aproximação com o trabalho de Dudu Santos aconteceu em meio à pesquisa de artistas que tivessem atuado, a partir do início dos anos de 1960, tomando a pintura como um motivo para o desenvolvimento de processos teatralizados. Pois, desde suas primeiras series envolvendo peixes e flores, confirmava-se a impressão de que sua produção operava com uma descontinuidade, recomeços deliberados que teriam como objetivo testar não apenas questões relacionadas à recepção do público, mas, e, principalmente, seu grau de comprometimento com a capacidade dessa linguagem corresponder a uma subjetividade indomesticável, crente apenas em uma ética da indiferença. 


Ao ter a oportunidade de entrevista-lo, pude compreender que, na verdade, o que o associa a projetos conhecidos dentro de nossa tradição literária, a partir de personagens de Borges como Pierre Menard ou Herbert Quain, é uma parábola do próprio Santos: um dia, teve a visão de um pintor famoso que fica cego, mas que, com a cumplicidade de sua modelo, resolve ocultar o fato. A partir de então, já à hora do jantar, seus olhos passaram a ser vendados por ela que o conduz, em seguida, ao estúdio onde retoma suas pinturas madrugada adentro. 


Na realidade presente desses trabalhos, o que seria um revés é a única estratégia que o obriga a aderir à letra de mão e rechaça os procedimentos pictóricos análogos à letra de forma com a qual preenchemos os protocolos mais rigorosos, alheios a aspectos mais próprios de nossa personalidade. No mais, isso não impede uma análise dos resultados, pelo contrário, é seu objetivo principal: em qualquer uma de suas obras a negação das soluções se alinha com uma vocação artística absoluta a ser criticada integralmente por ele mesmo. Nessa antítese que se instaura e permanece com base em uma gestualidade que é sempre pictórica, existe uma promoção da atitude que demonstra o teor discursivo de qualquer pintura sem jamais absorve-la pela própria ideia de solução, de convergência, de síntese. Por isso sua única fase abstrata se mostrou menos satisfatória, o que se compreende com facilidade: em todos os seus trabalhos há uma dúvida sobre se as marcas que se vê são delimitadas por ele conscientemente ou pelos corpos que deveriam lhe servir como modelos, enquanto que os elementos abstratos são evidentemente deliberados e inscritos na realidade pelo próprio artista e seu olhar culto. Em seu caso, são analogias tanto com os procedimentos tradicionais, quanto com os conceituais dos quais se aproximou espontaneamente e, em ambos os casos, existem como uma contrapartida rebelde, nem tanto radical, no sentido da negação completa do puramente artístico no objeto, a partir da substituição dessa mesma ambição por outra de caráter satírico: “a arte não serve pra nada”, em tese, não na prática. 


O que sobra, assim, é o sujeito que pensa como os outros um produto estético que se criou na condição de uma alteridade, um artista que seria incapaz de ver. Passa a ser enigmático que algumas coisas que se firmam como uma pintura vigorosa, digamos assim, em termos cromáticos e gestuais, que dialogam com as melhores telas de Jorge Guinle, em nosso contexto, por exemplo, não reinvindiquem uma conquista pessoal, mas demostrem ser fruto da relativização efetiva de qualquer efeito de qualidade inquestionável. Se apontar para uma via salutar de afirmação sobre a planaridade, sobre o que já foi desbastado por renúncia ou sofrimento deliberado, para cores e pinceladas heroicas ou de um intimismo raro, isso será substituído por um percurso às cegas em que a singularidade só se encontra ao fim, quando se desvenda os olhos e encontra-se consigo mesmo purificado de si, como um outro. 


A aproximação crítica ao trabalho de Dudu Santos, portanto, perpassando suas primeiras series até este momento em que se insinua um caráter antológico, reconhece um espelhamento no processo crítico interno promovido pelo artista o aspecto mais característico e estável de sua poética. Mas qual seria seu significado, perguntamo-nos na tentativa de decifrar, sem o artista, os conteúdos que emanam dali? Ao que tudo indica, demonstrar que não há mérito em ser o único indivíduo livre em uma sociedade em que todos cumprem rituais penosos de autocensura e anulação. A pintura que explode como num episódio emblemático só pode ser vista, por ele, como prosaica, uma aproximação entre o sfumato de Da Vinci e uma mancha de mofo no teto da cela de uma prisão a ser sustentada ao longo de meio século por desconstruções planejadas e factuais. Ou talvez, ritualizações que respondam à especulação de que seria indiferente com uma trajetória em que a predisposição inicial é sempre mais significativa que os prodigiosos resultados. 

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