a forma condutora de fluxos dominantes

Daniel de Paula

a forma condutora de fluxos dominantes

Daniel de Paula

  • Período
  • 05.08 — 09.09.2017

  • Abertura
  • 05.08 / 14h

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Na ocasião da minha primeira exposição individual na Galeria Jaqueline Martins, intitulada a forma condutora de fluxos dominantes, em lugar de um texto curatorial, apresento um breve trecho extraído de uma entrevista que elaborei e conduzi com o professor e historiador brasileiro José Jobson de Andrade Arruda. Trata-se de um pequeno recorte de nosso encontro, que estabelece uma correspondência entre o conteúdo explícito das obras presentes na exposição e as relevantes investigações de José Jobson de Andrade Arruda acerca das relações econômicas do sistema colonial brasileiro. 

Neste sentido, é importante destacar a presença de um artefato arqueológico do período colonial, que se justapõe a trabalhos recentes no espaço expositivo, apontado pelo historiador durante sua fala citada adiante – uma rocha calcária portuguesa previamente utilizada como lastro e recentemente resgatada em uma expedição subaquática a um naufrágio no Oceano Atlântico. Esse artefato, cedido a título de comodato para a Galeria Jaqueline Martins pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha do Brasil, revela meu interesse em compreender a complexa forma social escondida no interior da materialidade. 

Assim, por meio do entrelaçamento de objetos e de temporalidades, a exposição opera como um campo crítico e reflexivo sobre a história da produção espacial no contexto brasileiro, considerando a exploração colonial mercantilista como ponto fundamental enquanto história da reprodução de relações de dominação. 


...talvez fosse interessante primeiro o senhor explicar a função do lastro, utilizado nas caravelas, na navegação... e depois detalhar como ele era utilizado posteriormente e fisicamente na produção espacial colonial. 


É obvio, portanto, que o movimento de importação e exportação – porque a colônia importava uma série de produtos, todos aqueles que ela precisava para produzir; não há produção sem ferramentas, sem os tachos, sem os cobres nos quais se fervia o açúcar e fazia-se o pão de açúcar. 

Não; não há possibilidade de você instalar uma elite aristocrática em Pernambuco, na Bahia, em qualquer lugar que fosse sem a importação de vinho, sem a importação de azeite, sem a importação de trigo, sem a importação de produtos que eram normais da vida das pessoas quando moravam na Europa... 

E se eles têm uma riqueza eles precisam importar, então a importação e a exportação, elas estão correlacionadas. Não é possível aumentar as exportações sem aumentar as importações de elementos que são fundamentais à produção. 

Ora, isso significa que as viagens transoceânicas precisavam ter uma certa estabilidade. Os navios, quando saem do Brasil para Portugal, eles saem carregados. Quando vêm de Portugal para cá, na maior parte das vezes, eles vêm com cargas limitadas – não vazios, porque eles também traziam produtos que eram virtualidades que eram indispensáveis aos da terra, mas eles não eram suficientes para dar a esses navios, a essas caravelas, a essas urcas, o que fossem, a estabilidade necessária. 

É por isso que pedras são fundamentais para dar esta estabilidade necessária. É exatamente o que se chama o lastro, dos quais nós temos um exemplo excepcional que estará nesta exposição. E esse lastro vinha para cá e aqui, evidentemente, era descarregado. Não era tão fácil descarregar, porque se fossem pedras, era pesado para extrair de dentro dos navios, assim como era difícil colocá-los lá dentro. 

Esse produto, entretanto, era um produto... Esse produto, essa mercadoria – posso dizer isso porque as pedras tinham um valor econômico –, ele era inócuo, se considerado aos lastros modernos. O lastro moderno é água. 

O volume de água transportado pelos navios que cruzam os oceanos é uma brutalidade. Mas esses lastros [de água], que são carregados na Europa, são descarregados aqui. E o problema do contágio, em floras diferenciadas, por microrganismos que não são da natureza e da especificidade desta região, é uma coisa brutal. Que nós sabemos muito bem como, por exemplo, peixes predadores têm invadido, muitas vezes, regiões onde não há, para eles, os seus desafetos naturais. Eles não têm os seus predadores, por exemplo, e têm criado problemas em várias partes do mundo. 

E eu poderia dizer que estas pedras que vêm, as pedras de lioz, geralmente com calcário, que vêm de Portugal, elas são inócuas desse ponto de vista e têm, do ponto de vista da cultura material, um significado muito grande, porque podem ser usadas em várias localidades, como passeios, calçadas, chafarizes, igrejas... 

Se em Portugal o Mosteiro dos Jerônimos foi construído totalmente com esta pedra calcária, que é produzida na região de Sintra, da mesma forma, por exemplo, Mafra, Batalha, o Rossio, a Estação do Rossio em Portugal... 

Tanto que em Portugal, quem vai a Portugal vê estas paredes, a cor que identifica esta pedra, este calcário, é exatamente aquela que se vê, por exemplo, em algumas catedrais na Bahia. Como a Nossa Senhora de Conceição da Praia, por exemplo: se você olhar, você percebe a semelhança, inclusive o estilo de construção que ela permite dar. 

E há também outros marcos em outros lugares. Muitas dessas pedras foram parar, inclusive, em fortes que foram construídos no interior do Brasil. Porque os portugueses organizaram um sistema de defesa fantástico. 

Hoje, quando se observa os locais em que os fortes portugueses foram instalados para a defesa do território, se percebe uma coisa incrível, que hoje, com todos os recursos que o geoprocessamento nos permite localizar, quer dizer: as distâncias, as localidades eram absolutamente estratégicas, e ninguém pode imaginar como é que foram capazes de achar aqueles pontos estratégicos para colocar estes fortes. 

Bom, isso é a dimensão que se pode estabelecer da relação entre as navegações transoceânicas e a vinda desses materiais que acabaram sendo úteis à formação, ao desenvolvimento da cultura na colônia. Esta é a relação. 


...determina a cultura material local? 


Isso já esta dito. 


...como por esse exemplo dos fortes? 


Os fortes, que é essa geometria, eles mapeiam um território. 


...e dominam? 


Dominam. 

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